YLO BARROSO
POEMA

ANTHROPOS

 

domesticado pelo símbolo

a voz dizendo

atravessa! atravessa!

fustigado pelo meio-termo

saiu sem sombra uma besta: a cria

era a velha notícia enferrujada

e chumbada nos escombros da cidadela

enquanto a cadela armênia

traçava sua rota pulcra

e os vermes rondavam bêbados

a mortalha só veias e artérias

 

noite que um sol contém

sob o ubre machucado

o cio exortando a um outro céu.

 

domesticado pelo símbolo

suportou o peso da carne na carne

cegou ao diapasão da alvorada

Zagreu em arroubo de arrebol

 

chagas constritas eram desagravo

ao mar formado de seu suor

 

e suava e súplicas não rogava

à  árvore plúmbea, ao vento pagão.

 

nu, imberbe, são, como deve,

o sem métron

de dentro de nós.

JUAN DE LA CRUZ

 

os deuses sopraram em meu ouvido:

foge, procura no abscôndito abrigo

da luz a cuja chama adere o oblívio.

 

mas tua falta embalará meu sono

e um verbo entre ser e fazer

emprenhará decerto o dia

do mistério já sendo uma pista.

 

um e nu

raio e diamante

sentinela dos próprios fantasmas

até o momento da despedida

que verbo inaudito

tanto tenho dito!

 

cunhei minha infância em minério impreciso

o resto sou ventos, voragens, abismos

numa mesma voz, salmos

a conformar este corpo liso

em tempos que foram

e aqui estou:

vago a esmo

sobre mim mesmo.

entre dor e deleite,

um outro desejo.

ESPELHO DISTANTE

o pai espelhado embala-me nos braços

e forja-me em mim enquanto anda

em seu roteiro de minério.

ao espelho distante entreguei-me e já

não me cabe saber a medida de minha decisão,

a parte que tomo nesse mútuo ato.

emudeci, e voz evola não sendo minha,

mas ainda em mim maior que eu.

WANDERLUST BLUES

 

feri um touro com minha melancolia e julguei árduos processos

com leves badalos d’um sinete que já não tenho às mãos

 

e os que pude manter cativos são os que agora me confortam

enquanto sonho entre duas portas abertas.

 

baseei-me para tanto no tom cinza, brando e fundo a um só

tempo, o tempo todo apontando para dentro.

 

o que queria esse temporal silencioso anunciando-se

ao conduzir-me a esse aposento?

AURORA BOREAL

 

um velho alquimista em seu barco,

ele nunca pescou.

olhos postos no céu,

traz n’alma o espelho

-libélula, ela, esse elo

iriado e boreal. real

aqui, lá ela

é sal da intempérie magnética

em pleno mar abismal

e vai, nos vaus

celestes,

nas hermas d’estelas, Hermes

prestes

a alar-se

(lés- nordeste ou oés-sudoeste

estou, tudo movendo-

se) e senda sendo

deste êxtase,

redigia o sempre velho,

equilibrando-se, ponto,

no pequeno bote.

mariposa-psique pungente e penugenta,

sexoroboros,

larva do ovo cósmico

cá embaixo, refletindo

no lago, onde se anima,

como em cima

scribit tabula smaragdina.

e o filósofo persigna

-se enquanto pensa:

quando a ninfa abandona a exúvia,

eis a aurora boreal.  um dia

também meu tegumento

ao lodo será fermento, a alma

libérrima, ela, esse elo,

ao céu, afinal.

e escreve mais uma vez

the scientist writes a letter*:

juntasse milhão de vagalumes

em um domo, afugentado o mal,

jamais alcançaria o gume

que transparece n’aurora boreal,

jamais atingiria o nume

da bruta flor em límpido fanal.

jamais a mariposa hirsuta,

o cândido e vago lume, a tal

tênue flâmula, jamais.

 

* Música homônima, por Tom Verlaine

Ylo Barroso Fraga, cearense, é psicólogo, escritor e poeta. Radicado em Brasília. Casado com Bárbara e pai do Bento Gabriel. Publicou o livro de poemas Tris em 2008, pela Editora Corsário, que é atualmente adotado no colégio Lourenço Filho. Está trabalhando no filme-poema Quando Onda, a ser lançado este ano.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite