YASMIM NÓBREGA DE ALENCAR
POEMA

UM POEMA SOBRE CHÁ DE MANGA VESPERTINO

(ou sobre noites pouco dormidas)

 

Tem poesia até na insônia.
Nada escapa. 
As estrelas formam a cama
e a lua vive abraçando o sol.
O verso é a noite 
que cabe na tarde
dos sufocos invisíveis.
As rimas estão infalíveis.
E os tempos sendo bem feitos
de dias escuros, dias de excesso de luz
e pulsos, oscilando nas brechas,
imprevisíveis como noites pouco dormidas.

 

(fevereiro de 2017)

 

FICÂNSIAS

Aconteci

nessa manhã,

mas havia o frenesi

de outros

tantos

acontecimentos mundanos

me tocando, me tocando.

 

Nervos à flor da pele.

Derme da política,

dos desencontros.

Afeto dos contrapelos insanos

te falando que tá frio.

 

Achei e perdi

minha vida no meio fio.

Trem lotado, trem vazio.

 

Voltamos aos fatos.

Nada de você aprende e eu ensino.

Para ser é muito menos preciso.

Um pouco vulgar, perdido e cheio

de prazer.

 

Mas vale a pena te dizer

que me acalmei

nos gestos da chegada,

nos olhares de despedida.

 

É assim mesmo que veio tudo...

sem saber o vivido,

expandindo sentidos

no estar

que me beija.

 

Meu rosto sorri

manchado com batom das horas,

por aqui,

entre os saberes

que são a sorte daqueles

e daquelas que se conhecem,

belas ficânsias

que me deixam

parar e abraçar

o instante.

 

A cada abraço,

a sabedoria é mais que ciência e

nos faz ir além,

onde viver é sórdida

e linda experiência

dançada em vão.

 

E por que não?

(Março de 2016)

QUAL QUER?

Palavras que sinto
são canto de passarinho;
Encanto da manhã
que percorro...
É carro, é sufoco,
é queda d´árvore,
é cotidiano sofrimento barroco.

Carne trêmula nossa de cada dia,
suor no pescoço.

A vida é mesmo osso
que envelhece e esfarela
como a neve
que não cai na minha terra.

Chão preso, agonia...
É a hora que cala a mesma palavra,
manifesto antigo e novo oprimido,
sentido esfacelado na tarde,
ouvido que não vê, olho que invade
e a versão que te agrada
e cabe em qualquer você.


(pra 2013 acabar logo)

FORA DE FOCO

 

Passa tempo enquanto beijo 
as curvas turvas do teu corpo
no meu pensamento.

 

(2017)

 

 

ESTARASSIM

 

Estou chegando ao fim de algumas coisas e
sei que a sensação é muito boa.
Novos fins virão, novos começos e o verão.
Novos meios, antigas palavras e a flor do novo Vandré, 
vencendo o canhão.
E um novo canhão ameaçando a profissão da educação.
a velha luta buscando renovação.
E a aflição do meio fio,
não tem fim...
Estar vivo é estar assim.

 

(outubro de 2013)

 

TEMPO MUSICADO PRA VOCÊ

 

(para Márcia Balades, com amor)

 

Gosto do tempo do Caetano,
do Tempo Rei do Gil,
das horas perdidas no meio-fio que é o amor.
Gosto da incerteza fértil dos que vivem com este amor.
E "ser teu pão , ser tua comida"
faz meu tipo, tipo desmedida e exagerada artista.
Desgosto da música que se repete no bate-estacas machista.
Volto ao silêncio e sinto um Satie pelo ar.
Vento sopra e o assobio canta.
Te olho e faltam as palavras ditas.
Vem o Buarque e fala por mim: "Eu te amo".
E tudo fica "azulzim" e eu Djavaneando, por aqui.

 

(meados de 2013, São Paulo/SP)

 

CAMARIM

 

Parecia pálida aquela cara
sem máscara, à meia-lua...

Olhos santos, olhos do diabo
e a minha vontade de te beijar a nuca,
te roubar os sapatos,
te rasgar as roupas,
te ver na cruz do prazer
mais nua que Jesus!

Parecia silêncio, mas era música
sem dores ou lamentos...

Clima de convento, lugar ermo
e os meus dedos deslizando, sorrateiros,
por entre tuas coxas;
te digo meus pudores, vermelha,
mas na penumbra ninguém vê
minha vergonha
e você, completamente orgasmo em ser,
me puxa o corpo com força sobre o teu
pelas minhas costas, com as tuas mãos
que tocam a nossa canção.


(Mossoró, RN, abril de 2007)

Yasmim Nóbrega de Alencar (ativista de movimentos sociais, socióloga, bailarina, arte-educadora, poeta, mestranda em Estudos Culturais na USP, cearense)

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

Conteúdo protegido pela Lei do Direito Autoral nº 9.610/98. 

Editora Responsável

Lia Leite