elogio a murilo mendes

 

das macieiras da Califórnia

tantas por quantos réis,

eu te escrevo do exílio, murilo

de uma humanidade na cruz;

um filho – o filho de Deus

vivo que vivo, menino poeta

sem par que no mundo me parelha

sem réis, sem carambolas nem

cartórios para sabiás nativos.

só eu no mundo, o que faço murilo?

do teu silêncio mais profundo

brota uma sonata de beethoven 

e quanto mais o escuro envolve,

mais acho que é na solidão

que escrevo as mais belas auroras.

 

 

a mesma occasião

 

pequei senhor, hei

de pecar por me delinquido

pequei por não pecar

e tenho do pecado me vestido

 

pequei senhor, eu hei

de ter pecado e ofendido

e quanto mais peco

menos enfim arrependido

 

pequei quanto mais

que pecado é minha glória

ovelha que desgarra do senhor

 

pequei enquanto mais

nem me venha de sacra história

pequei por ser mesmo pecador

 

 

bandeira

 

eu quero o verso dos sapos
dum lago frenético de debussy 
feito da saliva das putas de pasárgada
(ubíquas moças) ah que moças,

teresa cara de perna! lagarta
listrada de sangue alcaloide. 
ah moças-girafas de cabeças duplas
dançarinas dos trilhos do trem 
e quando eu estiver triste, triste
triste de engolir pianos e arrotar teclas,
toquem o tango que eu desejar
até que eu junto de deus algum 
sobrevoe a face das águas 
da lagoa rodrigo de freitas.

 

 

revialáctea 

 

ora direis, direis

que tresloucado eu sou

ora se sou, são e não

na medida do infinito

 

ora direis, direis

quando me encontrares

ora se sou, não e são

na infinitude da medida

 

ouvi estrelas, direis

ouvir em vão no infinito

que nunca foi a medida

 

estrelas, direis, ouvi

no vão do infinito ouvir

a medida do que foi nunca.

Valdemar Neto Terceiro, ipuense de nascimento, marido da Licy, pai do Lucas, paidrasto do Samuel, mestrando em literatura pela UESPI pesquisando o épico Gerardo Mello Mourão, escritor e professor de literatura residente na cidade de Sobral, Ceará. Escreve prosas e versos desde que se entende por gente, mantendo a ordem crescente das coisas na sua escrita. Publicou alguma coisa na vida: Ipumirim Soberbo (poemas), de 2013 e Romãzeira das Fábulas (contos), de 2015 e orgulhosamente participou da primeira edição da Antologia Mutirão em 2014. Ainda escreve e ensina, numa labuta de corpo e alma que não lhe permite morrer.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite