meu corpo arde

arte soa como muleta, arte não soa como amuleto

arte é uma muleta para caminhar pelo mundo, para caminhar pelo outro

quando não me encontro nesse mundo e nesse outro

com a intensidade nata que ponho em tudo

eu me jogo no criar, me expresso por outra via

amuleto nunca foi, não foi dada por deus nenhum

quem me dá a arte é o diabo

ela não é presente, não presto quase nada para ser agraciada

agraciada eu seria se me bastasse a vida

se a intensidade que me sacia a fome

existisse naturalmente na vida crua e simplesmente vivida

vinte ossos meus se quebram quando me jogo na busca

meus olhos ardem, arame farpado perfura o meu peito

atravessa o meu coração de um lado a outro

quando eu crio eu me doo, eu sangro e ardo

meu corpo arde, meu corpo arte

o contrato é bem claro quanto ao mergulho e a migalha

o mergulho ácido, me mata a cada vez que afundo a cabeça

e as migalhas não enchem o vazio, mas quem eu sou sem essas migalhas?!

sem as migalhas eu calo, morro de silêncio, as entranhas secam

então eu volto, me jogo nesse jogo sem regras, porque pela vida que chama, tudo vale a pena...

as platonices

 

há um limbo para onde vão

as imagens dos amores.

há um limbo, onde a idealização

não tem vez,

é vista como mera

idealização

(para não dizer fantasia!).

há um limbo onde descansam

sem paz, os amores inventados.

há um limbo escuro

e em uma fileira

de cadeirinhas paralelas

os amores inventados

se sentam e esperam

a permissão para morrer.

 

da saudade

saudade é saúde

desse lugar de sentir

saudade.

não tem para quem dizer

porque não tem quem queira ouvir.

saudade é pecado, aqui.

saudade me enfia uma faca

de dentro para fora.

ando cheio de pontas de faca,

para fora. um porco-espinho.

um corpo feito de saudade.

saudade errada de quem não quer

ser sentido com saudade

de quem não quer ser sentido

de forma alguma

de quem quer ser desconhecido

esquecido, apagado, reduzido

incinerado, ignorado.

saudade sem motivo

de um corpo vazio

avaro de amor,

furtivo, esquivo

vadio.

saudade

com o pano na boca,

silenciada,

suas palavras são

nada mais que bobagem.

 

restos

que eu lide com a falta que sinto,

não convém gritá-la

aos corredores

longos e

catar o seu eco,

porque isso eu já fiz.

não convém endereçá-la

ao objeto,

em bilhetes melodramáticos

mais fantasia que sentir,

porque as palavras

fizeram greve disso.

não convém confessá-la

aos caras

que ficam no bar

até que as portas fechem,

eles vão me inventar

jeitos desajeitados

de abatê-la.

não convém

chamar

para a conversa

quando olhar os olhos

é um ataque,

uma declaração muda

de qualquer coisa banal

ou um teatrinho

de fingir convivência

pacífica

feito água.

tenho lidado

com a falta que sinto,

escrevo a falta

em letras capitulares,

nas paredes,

letras vermelhas

de sangue.

outro dia a botei no jornal,

anonimamente,

e pedi receita

para o desfecho,

todas que vieram são nada.

a falta continua,

indecente, intacta

e quando eu lhe censuro,

mostra a língua

como criança emburrada

e diz que vai ficar em mim,

que gosta de morar em mim

 

um conselho

atravessa o avesso,

não mereça os passos

que caminham para

isso. assume o

sumiço,

a preguiça,

a pirraça,

que te enchem

na sesta

da sexta.

assume o riso,

o frio, o rabisco

que desenham a

sua cara que

para em pausa

e pousa no sábado.

fuja da fuligem

que enferruja

a claridade

dessa tarde

que mora na

sua íris.

acenda para si

a luz que

ensaboa a

sua epiderme

e dorme,

sob a

transparência

desse ensaio.

caia para fora

da borda

liberta a

sua tara,

o seu drama

a sua trava.

usa na sua transa

o enlace, embaraça

o corpo

em outro umbigo,

encontra o abrigo

que tanto anseia

e dorme achando

que a paz é isso

e acorda do sono

com o sonho

de ser.

 

 

 

  Thaís Barbosa

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite