TÁRCIA FREITAS ALCÂNTARA
CRÔNICA

                              Bob Dylan

O país que tem pra hoje

Quem quer um Brasil menos desigual? Todos dizem que sim, mas quantos o querem de fato? Tudo bem se a contratação da faxineira se tornar luxo, serviço de alto custo? Quem nunca viu alguém se incomodar em uma festa porque o público estava “muito misturado”? Que tal abolir a área vip, o front stage, a primeira classe e outros cercadinhos afins? Pense rápido: quantos brasileiros limpam sua própria privada? E não vale delegar o serviço sempre à esposa ou mãe mais próxima, como tantos fazem.

Cada dia mais, parece que a desigualdade por aqui, ao invés de combatida, é planejada estrategicamente, para aumentar no longo prazo. Eu costumava ver TV sentada. Agora, só em posição fetal, me guardando pra quando o meteoro chegar. Enquanto uns discutem quando começa a vida, outros decidem por nós que ela vai terminar com a gente ainda no batente. Até a rima ficou pobre, pra combinar com a atual conjuntura. De repente vem aquela sensação de que a vida vai virar um eterno horário comercial. Temer featuring Rihanna: Não pense em crise, work, work, work, work, work.

Voltamos sempre às mesmas discussões requentadas. A vida começa quando acontece a fecundação? Ou quando a gente cumpre o tempo de contribuição do INSS? Uns correm atrás do tal “trabalho dos sonhos”. Mas cai a ficha: sonhar, escolher e planejar são hábitos restritos à parcela da população considerada, com o perdão da palavra, “top”. Vale lembrar que o mundo está cheio de gente ousada, que larga tudo, faz e acontece, enquanto o papai paga as contas religiosamente no fim do mês.

E a meritocracia? Ah, a meritocracia! Ainda bem que existem as histórias de superação na TV, pra mostrar que o problema não é o país, o problema é só você. Você é que não consegue o que uns três gatos pingados conseguiram em condições desumanas. E como faz sucesso a narrativa do sofredor conformado no seu sacrifício cotidiano! Do cara que batalha feito louco pra conseguir o que deveria ser seu por direito. O sofrimento e a luta dos outros diante da injustiça social não vira indignação, vira autoajuda, coaching, vira hashtag de força-foco-fé.

A história de superação é a canção de ninar da tão defendida família tradicional brasileira. Esta - é importante destacar com o dedo em riste – é composta por um marido, uma esposa, filhos e uma empregada. Isso, claro, quando a esposa e a empregada não são a mesma pessoa. Enfim, a narrativa do “vencedor” gera catarse e faz muitos acreditarem que todo problema social é pura falta de esforço individual.

A dura verdade é que um pobre com acesso a bens de consumo incomoda muita gente, mas um pobre com acesso a educação de qualidade incomoda muito mais. Uns dizem querer o fim da desigualdade social no Brasil, mas claro, desde que a limpeza da própria privada possa continuar sendo terceirizada, de preferência a preços módicos. Fazer merda e não limpar às vezes é tradição que passa de pai pra filho. Que o digam alguns exemplares da nossa fauna política, cujas famílias tradicionais se perpetuam em cargos públicos, por Deus, pela família e pelo bem dos seus patrimônios privados.

 

A propósito, pra defender minha verborragia: pela descriminalização do textão, eu voto sim!

Tárcia Freitas redatora, mestre em Comunicação, aspirante a escritora, especialista em formas inovadoras de tempo, digital influencer de meia dúzia de gatos pingados e coach de casos perdidos.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite