Notas mentais contemporâneas

 

Respeitar a forma. Caber na fôrma. Pentear os cabelos para o lado certo. Sorrir o suficiente para ser inserido no cadastro dos simpáticos, mas não o suficiente para ser o espontâneo que destoa. Ficar atento às microexpressões faciais, que revelam muito mais que palavras, muito mais que silêncios. Beber moderadamente para uns. Não beber para outros. Beber até cair onde estar caído for a norma. Ler Dostoiévski sabendo quem são Simone e Simaria, pois cada informação tem diferentes valores em cada contexto. Não ser desleixado porque é feio. Não se arrumar tanto porque é fútil. Não ser cuidadoso demais consigo mesmo porque é neurose. Fazer listas. Cumprir as ordens das listas. Catalogar as ordens cumpridas e listar seus benefícios. Lamentar e se autoflagelar pelo que não for cumprido. Não se flagelar tanto para se manter aparentemente intacto no dia seguinte. Ter medo dos assaltos, mas não o suficiente pra ser ”Fortaleza apavorada”. Controlar o medo como quem controla o volume de um aparelho de som, como se medo fosse máquina. Amar a cidade da qual você tem medo. Ter medo de quem ama muito e preguiça de quem ama pouco. Trocar os brincos periodicamente em respeito a orelhas negligenciadas. Não pensar demais em orelhas e em nada que não renda juros compostos nem possa constar no Linkedin. Amar postar e amar para postar. Frequentar lugares fotogênicos. Comer comidas com cores saturadas.  Bater selfies com pessoas simétricas e sem poros. Ter louças e dentes de porcelana. E uma Airfryer. E descascadores de frutas tão inúteis quanto secadores de mãos.  Perder tempo lendo coisas sobre como controlar o tempo que te controla. Começar textos e prometer terminá-los. Protelar o término. Protelar todos os términos possíveis na vida. Ter um hobby respeitável. Criar um texto padrão de apresentação para ser recitado sempre nos primeiros dias de aula de um curso qualquer. Inserir o hobby respeitável no texto de apresentação. Acumular coisas, contatos e contratos. Guardar todos os comprovantes. Ter mais cartas que comprovantes. Amar as pessoas físicas e temer as pessoas jurídicas. Querer quem revira os corpos, temer quem revira as leis.

Tárcia Alcântara Freitas, redatora, mestra em Comunicação, aspirante a escritora, especialista em formas inovadoras de tempo, digital influencer de meia dúzia de gatos pingados e coach de casos perdidos.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite