ROSANA PICCOLO
POEMA

 

Copo de borboletas

 

e bebo um copo de borboletas

 

a primeira, súdita da névoa

outra me vem com asas de chita

estrelas amarelas

alta patente em asas militares

 

asas querendo ser braços

procuram colares e camisolas negras no armário

todas da mesma ordem

todas à mesma hora

costuram-me as pálpebras

e me apunhalam com lâminas soníferas

 

 

Estampa africana

 

Não é o conflito vermelho das aves

com estilhaços do crepúsculo

nem a piscina dos crocodilos

nem a palmeira

ao fio da chuva guerreira

não é a tatuagem no dorso do lagarto

não é estrela, pavão, topázio, olho

de leopardos saciados

não são mangas abrasadas

nem serpentes de canela

apenas a estampa, a canga

da feiticeira senegalesa

que sopra-me a testa, essa ruga séria

 

 

Ira

 

possível rosto de um tigre

nesse girassol do fogo, quando

a noite é carroça de demônios

e uma horda de rugidos

povoa-me as veias

 

queimo as mãos ao tocá-la

(essa aparição das chamas)

fera

ouânfora de cólera

onde perco meus óculos

 

 

Cool people

        

vogais balões voláteis

sob o toldo aglomeradas

 

o poste cria os óculos da moda

exibe grafites, traço malvisto de cigarros

 

neons encontram bocas

________________________________frutos de veludo sem semente

 

há um gosto de resina

em argumentos de bom-tom                 

 

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­________________________________a noite é um dente sem nervo

 

 

Malleusarboribus

 

em torno de meia hora

basta a pétala do fósforo

bolhas na pele

 

basta a árvore

raízes como artelhos retorcidos

donde partem as chamas

e apressadas

e rumo à coroa de plumas acesas

 

mau pressentimento na dormência

da semente: sardas do fogo

na língua das folhas a praga obscena

surto de gritos

 

Irritam-se os dedos volúveis da fumaça

formam pentes

pentagramas

gatos negros indolentes

sobre a queimadura das copas

 

ela tem poderes e poções, é o que dizem

faz do galho ressequido a vassoura apavorante

bonecas alfinetadas

 

guarda o livro das sombras, é o que dizem

chamuscado por faísca

de um halo de punhais

 

alumiam demônios, fugitivos

da mata vestida em labaredas

como uma bruxa queimada

Rosana Piccolo. Publicitária e poeta paulistana. Autora dos livros Ruelas profanas (Nankin, 1999), Meio-fio (Iluminuras, 2003), Sopro de vitrines (Alameda, 2010), Refrão da fuligem (Patuá, 2013), Bocas de lobo (Patuá, 2015), além da plaquete O pão da neblina (no prelo, pela Leonella editorial). Participação em diversas antologias e revistas de literatura no Brasil, Espanha e Moçambique.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite