Hora Extra

 

  Há dez mil horas do ocaso. Nenhuma asa. A luminária é o diamante da

escuridão. Relevo nenhum de telhado, nenhuma brisa que enerve o plantão da

calçada sem passos. A bola de papel jogada ao chão não ousa perturbar o mundo – a treva pinta bocas de platina pela rua anestesiada, engole mãos, talheres e teclados, mortos que parecem vivos.

 

  Lenda da Terra de Marlboro

 

  Não faz muito tempo, em todo outdoor, no rosto maquiado de toda esquina,

fácil vê-lo. Eu só reparava o laço em seu punho, nem via seu rebanho de búfalos negros. Teria lá seus trinta, trinta e poucos anos. Nada me dizia sua boca entreaberta, baforando a nuvem espiral. Como o cheiro agreste que usasse, nada, nada mesmo me dizia.

  Ele era um caubói. Eu seguia na multidão. Eu nem reparava o seu cavalo

majestoso, em todo outdoor, no rosto maquiado de toda esquina. Fumar faz mal à saúde: não era lei escrever. Por ele, eu passava reto. Foi excesso de alcatrão? Teria lá seus trinta, trinta e poucos. Eu nem reparava a embalagem vermelha, sangue de búfalos negros. Eu seguia – foi carcinoma?

 

  Sinal Verde

 

  Se não for o tigre em chamas de William Blake, ou dançarino do fogo, se não é o inferno, o crime em série do santo ofício, se não for o apocalipse há de ser a multidão apenas, debelada no lábio do semáforo.

 

  Mar Insosso

 

  Aquário em oferta exclusiva. Acompanha, desatado, o cabelo fino das algas, o

navio-fantasma, a estrela-do-mar em assombro. Pois nele mora a sereia. A ela não falta a partitura nem o pente, a longa carruagem galopante das nereidas, não faltam bojadores. Quando o véu do cardume se dissipa, o rosto surge miúdo detrás de alguma concha. Nos olhos fundos, febris, lampeja um filete de lágrima azul, falta-lhe o regente.

 

  Retorno

 

  Tarde fria. O anjo passa. Profusão de malhas e garoas. Bares. Na pluma da

xícara quase que a sexta, suprema asa vermelha. Do clarim à calçada mil tardes frias. Passam jargões e gravatas, vem o bisonte – e o cenho de ferro a gruta a pedra a mão noturna do chimpanzé. Novamente o fogo porém, vapor da metáfora. O alfabeto e o guarda-chuva. Depois o anjo, outra vez.

 

 

 

Rosana Piccolo é publicitária e poeta. Formada em Filosofia pela USP, e em Jornalismo pela Fundação Cásper Líbero. Autora dos livros de poemas Ruelas Profanas (Nankin, 1999), Meio-fio (Iluminuras, 2003), Sopro de Vitrines (Alameda, 2010), Refrão da Fuligem (Patuá, 2013), Bocas de Lobo (Patuá, 2015), além da plaquete O Pão (Lumme, no prelo). Participou de diversas antologias e revistas literárias no Brasil, Espanha e Moçambique.

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Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite