ROSA MARIA MANO 
POEMA

QUALQUER FOME

Deixo, na partitura interrompida
de um músico embriagado,
os que dormem com fome.
Qualquer fome.
Faço amor com os mares
e toda a fúria de que são capazes.
E me permito emprenhar das criaturas
que ainda não conhecem o homem.
As águas todas em sal transmutadas,
todas afluentes, espelhos 
do lugar de onde venho.
Serei mais que apenas,
mais que engano,
flauta de panos coloridos
parindo sinos, peixes, 
água branca caiando muros.
O doce me revolta o apetite
e salgo a saliva num beijo.
O alerta das caves abissais
entorna o escuro,
e o breu desabrocha 
violetas no rochedo,
salta as marés desalinhadas.
No estremecimento da carne,
cavalgo, no íntimo dos mares,
fauna e flora, pedra e pasto,

em dorso farto de extinto rinoceronte.

Rosa Maria Mano, paulistana, residente em Rio das Ostras (RJ). Poeta com alguns títulos publicados: Fruto Mulher - coletânea de poemas (1982) - Ed. Semente; Xamã - poemas (1984) - Litográfica Edições; Três Marias e um Cometa - infanto-juvenil pela Coleção Passe Livre (1986) - Companhia Editora Nacional; Antologia Prêmio SESC/Rio de Janeiro - poemas (2000); Vento na Saia - poemas em e-Book (2015) - Amazon/Kindle; Manuscritos de Areia - poemas pela Coleção Marianas Box 2 - Marianas Edições/Bolsa Livros (2017).

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

Conteúdo protegido pela Lei do Direito Autoral nº 9.610/98. 

Editora Responsável

Lia Leite