Rita Kalinovski
POEMA

PUEBLO

 

pessoas

envergonhadas

sem cor nem voz

invisíveis

mas tão presentes

na face da dor

na ausência da revolta

essas pessoas

têm créditos

a receber.

será no reino dos céus

onde o mel escorre

e o perfume dos deuses

as inebriará?

ou jogadas serão

na noite da neblina

interminável

a sentirem

hora a hora

a ruindade do tempo

que não foi vivido?

a ouvirem

minuto a minuto

o som da vida

lastimando o letargo

de não terem reagido?

a verem

de segundo em segundo

na tela do fenecer

a exuberância

do que poderia ter sido?

FINA FESTA

 

embrulhei-me

pra presente

pus anel

brinco diferente

sorrisos a granel.

caminhei-me

urgente

para a festa

repleta.

estava composta.

pela fresta

todos na compota:

tantas cores

tantos brilhos

e vapores

e vidrilhos

e pedrarias

e cabelos

nos sorrisos

muitas bocas

e nas bocas

tantos dentes

tão formais

as cabeças

tão triviais.

sorvi

sem querer

da taça do bem

e do mal.

LITTLE GENTLEMAN

 

para o enorme coletivo.

bufa barulho

espalhando poeira.

da vermelha lata de sardinhas

saem tufos de pessoas ligeiras

abraçadas em lamentável pressa.

brancos, asiáticos, morenos, negros

índios, bebês, loiros, velhos, moços.

mafuá de rostos tensos

correm atrás do dia

com medo de perde-lo.

uma chusma ansiosa sai

entra outra.

quantos sentarão?

aquela senhora

com oitenta nas pernas

e cinco na sacola

para frente ao jovem sentado

refugiado nos olhos fechados.

avelha solavanca, insegura

no capricho do motorista impaciente.

levanta-se então

outra senhora

e dá lugar a esta

que senta, derramada.

 

 

  

 

 

 

 

 

 

Rita Maria Kalinovski – destaca em seu "histórico literário" os seguintes livros editados: Grilo Pula... E Peixe Nada? - (Escolhido para representar o Brasil na Feira Internacional do Livro Infanto-juvenil de Bolonha, Itália. Incluído nos módulos de Literatura do Plano Nacional do Livro Didático de São Paulo.) |A Chacoalhada no Céu e Aonde Vai o que Eu Sinto? - Bienal do Livro de São Paulo. |Aonde Vai o que Eu Sinto? nas Bibliotecas Escolares de São Paulo e Belo Horizonte. |Por um Triz - Poemas minimalistas - ilustrações de Sônia Gutierrez. Ed. Labirinto. |A Cortina Etelvina e o Vento Barulhento - Lei de Incentivo à Cultura. |Meias para Sereias - Edições Marianas. |Teatro Pé no Palco - Literatura e Teatro. Adaptação do livro A Cortina Etelvina e o Vento Barulhento. |Tempo de Poesia – Antologia - Time Editora. |Revista EELS – Concurso de Poesias. Endereço eletrônico: rkalinovski@gmail.com

LETARGO

  

o tanto faz

não tem posição

nem estabelece querer.

existe sem objetivo

surgiu sem porquê.

por não ter gosto

não assume preferência.

por não ter cheiro

é indigerível.

por não ter atributos

não faz volume.

por não ter cor

nos cega olhar.

por não ter eixo

o vento pode mudar.

mas pisa no muro

e contempla

o movimento

do sim e do não.

em geral

o tanto faz

nada faz.

 

  

PERCEPÇÃO

 

no enorme salão

a guardiã dos quadros

andava de ponta a ponta.

as fotografias, lado a lado

expostas.

nos lugares inusitados

rostos peculiares.

pessoas raras

como rural era seu meio.

pessoas desguarnecidas

como o esperado.

a mim, causavam deslumbramento.

na moça

a repetição do visual cotidiano

apenas uma vez lhe enriquecera

os olhos atentos.

não fazia importância

quem havia entregado

alma, suor e louvação

na sensibilidade de captar

o real.

movida pela simpatia

do trabalho enfadonho,

perguntei como é a vida

de guardiã de museu?

atrás do sorriso inteiro

eu coloco em ordem a cabeça

resolvo problemas

decido coisas.

e você viu, na foto

onde o homem toca um berrante?

como está arrepiado o braço dele?

não! respondi.

 

 

  

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

Conteúdo protegido pela Lei do Direito Autoral nº 9.610/98. 

Editora Responsável

Lia Leite