AMORTO

 

O amor está morto (e) por aí

Lançada a última pá de cal sobre seu peito dolente

Pregada a tacha ensangre à mão dormente

Em versos sem novidades

Sem cor, com brevidades

Num beijo inconsequente.

 

O amor está morto, mas vive por aí

Cabeça margeada em receios

Com mãos alheias em seus seios

A falar frivolidades

A dividir ansiedades

A combinar saracoteios.

 

O amor está morto, sempre esteve,

Pois que em si não se basta

Não se encontra, nem se enfrenta,

Não tenta, se consome, some e sequer vive em lembrança

Nem turva-se à saudade.

 

O amor está morto, mon coeur em aborto,

Pois que nunca teve-lhe vida que não o travo insosso da partida

E a desfeita alusão à felicidade.

Raymundo Netto. Jornalista, escritor, editor, quadrinista e produtor cultural. Autor de Um conto no passado: cadeiras na calçada, romance ganhador do I Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará; de Os Acangapebas, contos, ganhador do Prêmio Osmundo Pontes da Academia Cearense de Letras; de Crônicas absurdas de segunda, finalista do Prêmio Jabuti 2016; entre outros. Cronista do caderno "Vida & Arte" do jornal O POVO desde 2007. Mantém o Blog AlmanaCULTURA: raymundo-netto.blogspot.com.br   

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite