Duas histórias eróticas

 

Serei Maiakovski, serás Lília

 

Hoje acordarei em dia de Maiakovski – mãos capazes de arrebanhar três canecas de vodca, cabelo untado a querer voar em forma de pássaro, coração a fabricar metáforas. E tu [quem quer que sejas] serás Lília [Lília, a amante de Maiakovski].

Eu [Maiakovski] agarrarei tua mão [Lília] e sairemos pelas ruas – e transformaremos as ruas de invivíveis lugares como Teresina ou São Paulo nas avenidas de Petersburgo [a velha Petersburgo do tempo dos czares - balalaicas e tavernas onde lúgubres personagens de Dostoievski planejavam mudar o mundo sem ter ideia de como].

Passearemos pela Perspectiva Nevski [panfletos bolcheviques escondidos em nossos casacos], e em algum café a mirar a Fortaleza Petropavlovski [virando a cara sempre que passar alguma patrulha da polícia czarista] tu [o rosto encostado na mão com o rubro dos lábios a rimar com o mesmo das unhas] me mostrarás o vestido branco, de grandes bolas negras. Tomaremos café brasileiro com vodca [seremos russos] com os braços dando voltas um no outro.

E [minha caríssima Lília] em alguma água-furtada [três janelas a mirar o amanhecer no rio Neva] tu apoiarás o salto da altura da estratosfera em algum pufe de abeto siberiano, puxarás o vestido [as grandes bolas negras a se deformar] mostrando-me toda a extensão do meião de seda encimado em um fecho que desfarás – pois é isso que as amantes fazem.

E o resto que faremos [minha cara Lília] não serão poemas de Maiakovski.

 

O poeta e a garota

 

Dizem que Kurt Tucholsky depois de publicar o Frauen von Freunden [no qual não sem crueldade desancou as esposas de seus amigos] arrependeu-se. Pegou o chapéu no vestíbulo do jornal onde trabalhava – a Cortina do Mundo / Die Weltbühne – trocou duas palavras com o novato Bertolt Brecht e saiu à rua. [O céu de Berlim porejava uma neblina fina].

O poeta desceu a Potsdamer Platz [era meia-noite e três minutos e ninguém sabe quem anotou a hora com tamanha precisão], dobrou à direita na Kudamm e se deixou ficar em um café [dos inumeráveis cafés existentes naquele 1925] na rua Stauffenberg [que ainda não tinha esse nome], pediu um brasilianischen Kaffee com uma gota de leite [sacrilegamente para um alemão] e se deixou viver. Esqueceu Goethe e a Política, as lembranças de guerra e as eternas brigas com o KPD, o partido comunista.

Sentou-se à sua mesa não uma Fräulein [naquela noite dadaísta não havia senhoritas louras] mas uma morena [quase como o café]. Os registros guardaram da garota [se é que existiu mesmo] as sobrancelhas, o sorriso e o olhar [que, para o poeta, parecia dissipar a neblina].

Do resto da noite só restaram especulações – de meias baixadas até os tornozelos, saias e camisas aterrissando em pontas de cadeiras e do poeta e de sua namorada a comporem juntos [a entremear gemidos e gritos] um novo soneto que menores de idade jamais poderiam ler.

O resto dos registros se perdeu em algum bombardeio na Segunda Guerra Mundial.

Paulo Avelino gosta de literatura fantástica, pintura da escola fauvista e epistemologia. Escreve contos e crônicas. Trabalha com finanças na Administração Pública. Tem 54 anos, mora em Fortaleza e frequenta pontualmente a musculação.  

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

Conteúdo protegido pela Lei do Direito Autoral nº 9.610/98. 

Editora Responsável

Lia Leite