16 SONETOS DE A ONOMATOMANCIA

 

1. OR’AÇÕES

  

Ora são

 

para Maxwell Filho e Paulo Martins


Visão, meu imo, peço a fim de estar

atento à distinção entre os da onça

e os do peito e a prudência me guarneça

dos embustes daqueles, das peçonhas

Se não me for possível a defesa

sem contra-ataque, meu ser, quero a força

certa para um só golpe e além: destreza

por que a raiva não desande em desforra

Que eu saiba discernir condescendência

e paciência e não ceda à infame corja

de usurpadores margem à insolência

de pensar que o meu verso a condecora

 

Velai, meu eu, desnudai-me o poema

de colarinhos batas fardas togas

 

 

 

Ora são

 

Ao deus desconhecido de São Paulo

e Zaratustra rogo única dádiva

a de envelhecer mas inquieto incauto

oposto a carantonhas antipáticas

Que eu não conte vantagens como um pábulo

nem me arvore em pregar cuspindo raiva

não me some ao avaro homem de cálculos

nem defenda a família - a posse - a pátria

Sobretudo deus possa eu morrer com a auto-

estima de não ter cedido à lábia

dos que em teu e no nome - amém - do másculo

poder, já jovens cobrem-se de pátina

 

Esta oração lembrete seja e obstáculo

aos fungos da alma, ancianidade máxima 

 

 

 

Prece de Judite (JT, 9)

 

Minha não-deusa não-deus: Deus(a) Trans-

gênero, dai-me força para o embate

a domesticação do fero canz-

arrão que morde — cérbero — e após, late

Sois Senhor e Senhora e nem um nem

outra ó Pãe ó Femacho ó Comum-de-

dois ou mais, sois Vagina e Pênis, ten-

des Seios siderais: que nos fecunde

vosso Amor e sejamos animais

de alma e sexo e possamos saber sê-lo

Ele-ela diferentes mas iguais

elas-eles-nós todas todos — elo

        Decepemos o mal: não nos concerne

        o veto do censor, esse Holofernes

 

para Judith Butler 

 

 

 

Ídolos do foro

 

Eles julgam conforme são: Senhores
os donos da justiça e arbitram justo
que — patronos — promovam seus rancores

às primeiras instâncias do ódio adusto

Porque posam também de benfeitores

vestem a toga e batem o vetusto

martelo: mas absolvem infratores

(os pares de partido): só um susto

Sim, magistrados desembargadores

cada qual mais altivo insigne augusto

(seu papel desempenham como atores

de cinema — o topete o riso o busto)

 

Julgo-os: com que direito? Ora, com as dores

de quem paga as custas a muito custo    

 

 

2. A PORTA GIRATÓRIA

Xis

 

Quando de mim me esqueço, distraído

é que mais perto estou de ser feliz

(quem escapa ao perigo impressentido

quem nem sonha com o havido e por um triz)

Quando de mim desperto, alma rompante

atenho-me ao desastre que me fiz

(inferno-me nos nove ciclos, Dante

sem Virgílio sem fé sem Beatriz)

Quando do mundo dou acordo, o alheio

terror une-se ao meu, direito a bis

(mal com mal breu com breu feio com feio

massa disforme o caos força-motriz)

 

Quando abro os olhos para Deus o Assis

que não sou se elimina

                                  e assina

                                                X

 

 

Rês posta

 

Venha e responderei por mim de jeito

que melhor não vir Venha e quererá

não ouvir não ter vindo e estar sujeito

ao muito que direi e escutará

Melhor se não respondo por mim que

se o faço o faço a sério de maneira

que vindo não há quem comigo brinque

Se respondo não é por brincadeira

 

Venha e verá que não estou me opondo

a seu vir Venha ouvir o que ninguém

por mim responderá Venha e respondo

de modo a não haver resposta nem

 

Preferirá não ter vindo Por mim

respondo e o que respondo é

     SIM

 

 

Chamado

 

        para Rômulo Diniz

 

Subo pelo cipó dos mortos ao

Reino dos Encantados onde vejo

o Magistral-Xamã Senhor do Astral

Superior (e à luz do Relampejo

alvoreço no Não-Tempo Ancestral:

 

entre Seres-Estrelas revorejo

e banho-me no Mar de Água Lustral

de que emerjo renovo e me espacejo

 

Me espacejo di-luo-me fractal

a cada mirar cada lacrimejo

 

Vêm sombras fantasmis vem o Espectral

o medo vem, o Medo e seu cortejo

(mas não me assombro e alcanço mais um grau))

 

Volto à casa-mim: tudo é benfazejo

 

 

 

Soneto da porta giratória

 

Jesus retornou mas disse vir a passeio

libelos de libélulas e ali, lilases

o hipopótamo abriu a boca: ó sole mio

não abriu e era já reserva o paraquedas

Jonas no cachalote e Gepeto e Pinóquio

narra a vida do autor o personagem morto

dormi no voo. Cheguei: aonde? Bem-vindo ao Hades

ao espelho o cego vê o olhar vazado de Édipo

Decifrado o hieroglifo o que dizia? "Não Sei"

flui melífluo o leitume do teu seio esquerdo

no búzio o som do mar e os gritos do afogado

mil anjos na cabeça do alfinete, dançam

 

O corpo entrou porém a alma ficou lá fora

quando o homem passou pela porta giratória

 

3. O DIASCEVASTA

 

 

Virginia Woolf. As ondas — Bernard

 

Não quero estar cinquenta anos com o um-

bigo a conjeturar imóvel Quero

atar-me a uma carreta de legumes

que sacoleja sobre o calçamento

Amigos perdi, mortos uns por mero

descuido ao cruzar ruas Já não presumo

tantos dons qual supunha nem me penso

decifrando os dilemas que me abrumam

Não aprenderei russo nem nenhuma

leitura dos Vedas farei Dispenso

a posse do que seja O véu se esfuma

Suspeitas vêm-me horrendas, grossos pelos

 

Laborar frases com senso-comum?

Se preciso de um ai! de um ladro um berro

 

       

 

Canetti. Sobre a morte, anotações 1942-1972

 

O que não pacifica o desespero

O que não tranquiliza o entejo à morte

O que dorme e desperta insatisfeito

ou não dorme porque sabe que morrem

 

vários em meio ao sono O que não come

por saber que durante seu banquete

muitos são deglutidos Quem não tome

do amor porque de amor padecem sede

 

inúmeros Alguém que seja o tempo

todo esse sentimento de estar bem

alerta, alguém que enquanto outrem se alegra,

 

pela felicidade do outro, tema

Alguém que emita a lástima ante o horrendo

da tortura de vir a ser ninguém

 

 

  

Antonio Carlos Villaça. O nariz do morto, cap. Depois do mosteiro

 

Fome de vida. Frêmito. Desejo

de sair agitar participar

da vida — enorme, o homem é sobejo:

maior que sua inércia o seu criar

Mas na maturidade a descoberta

das medidas exatas estribeira

do pouco que se pode ter por meta

apesar do bastante que se queira

Vide Amiel e o patétrico Diário

Amiel que pretendeu tanto e o que fez?

livro-desilusão confessionário

de frustrações fracassos morbidez

 

A condição humana é resistência

e devir: transcendência na imanência

 

 

 

Rita Moutinho. Theo & May

 

Possa um dia eu dizer que sim! amei

e nessa exclamação ter a certeza

de que o fiz à imagem de Theo-May:

como quem faz-se à altura da grandeza

de resenhar a vida em versos, ambos

pródigos na expressão de seu papel —

ó quantas confissões nesses escambos

com que escrevem (se escrevem) May e Theo!

Dizem-se a guerra o caos a ditadura

dizem-se a culpa a morte dos tordilhos

o sonho o vinho a música a ternura

os anos em sossego e afogadilho

 

Amar é gozar todo o corpo místico

do soneto e findá-lo — a dois — no dístico

 

 

4. PARA LILÊ

Sei que ela esteve amigo aqui porque

 

Sei que ela esteve amigo aqui porque

corre em direção à nascente o rio

o galo infrene canta e o passario

não há rádio ligado nem tevê

 

O vento é colorido e o massapê

na praça o leão brônzeo me sorriu

sargento incontinente me deu psiu

a folhinha diz hoje é o dia d

 

Abraçou-me o profeta Jeremias

Esaú e Jacó já brincam juntos

tu mesmo amigo pulas e assobias

 

Vê: o arame farpado botou flor

as gentes têm na boca dois assuntos -

um o amor outro o seu oposto, o amor

 

Santiago do Chile, 09-07-17

 

 

 

LiLê na casca de noz

 

Eu quero ser começo de namoro

louco amarelo campo de van gogh

alma de alecrim seu espírito odoro

dedos de afagar dobermann buldogue

 

grogue, atentado ao pêsame ao decoro

surpresa! animação que se prorrogue

cirandinha entoada em grego em coro

a desconcentração do mestre iogue

 

rei do espaço encontrar-te numa noz

quatro braços ao ar, deuses hindus

cingir-te e levitarmos até nós

 

o casal dançaremos olhos nus

mágicos cidadãos da terra de oz

belos      como um sorriso de jesus

 

 

 

LiLê Sombra e Luz

 

Tu caminhas de costas para o sol

teu rosto à sombra o sol às tuas costas

parece que a luz nasce às tuas costas

parece que tu pares luz e sol

mas se te voltas contra mim ao sol

se teu rosto à luz para mim as costas

parece que ensombreço às tuas costas

contigo a luz carregas: luz e sol

se de lado te pões de um lado o sol

de outro a sombra em teu rosto dorso costas

parece o sol se pondo o rosto as costas

de um lado de outro a luz suponho o sol

 

Caminhas para mim o sol às costas

sol sol sol sol sol sol sol sol sol sol

 

 

Fiz um poema ao não fazê-lo, ao sol

 

Fiz um poema ao não fazê-lo, ao sol

à luz, ao acordar e ao ter-te ao lado

o bocejo o bom-dia o baby-doll

pão café-com-leite o achocolatado

Fiz um poema ao não fazê-lo, à tarde

(é domingo), o atrasado almoço os chopps

os sorrisos os dois tontos com ar de

recém-casados ou... amantes - ops!

Fiz um poema ao não fazê-lo, à lua

ao me doar-te - ó mártir dado a Vênus -

ao teu regozijares-te, deia nua

ao amar-te e ao gozar-te - marte pleno

 

Fiz um poema: fi-lo ao não fazê-lo

Fi-lo ao antes vivê-lo e, hoje, escrevê-lo

Colagem do autor

O Poeta de Meia-Tigela foi nascido por Alves de Aquino em 2008 e por este morrido em 2018, após a publicação do Memorial Bárbara de AlencarConcerto n. 1nico em mim maior para palavra e orquestraGirândola acidade (este em parceria com Carlos Nóbrega), todos de poemas. A Onomatomancia é obra póstuma e, em sua maior parte, inédita. 

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

Conteúdo protegido pela Lei do Direito Autoral nº 9.610/98. 

Editora Responsável

Lia Leite