Clics de sonhos

 

- Ondina, preste atenção, vá ao mercado e compre um carretel de corda.

A jovem ouvia sem piscar.

 

- Precisamos embalar o resto da bagagem, filha. Mas, não fique sonhando aí pelo caminho, ouviu bem? Temos que nos preparar para a mudança.

 

Ronaldo, o pai de Ondina, tinha razão de sobra para se preocupar. Estava certo em alertar a filha sobre o lado sonhador dela. Sim, ela sonhava o tempo todo. Vivia no mundo da lua. A troco de que Ondina tanto sonhava?

 

- Pode deixar, papai. Volto já com a corda.

 

E lá foi ela cumprir sua missão. Mas quando botava a cara para fora de casa, era como se um arco íris se abrisse no horizonte. Ondina viajava no planar dos pássaros, no andar furtivo de um felino, numa brisa brejeira acariciando as folhas das árvores. E assim, uma caminhada que normalmente duraria cinco minutos, prolongava-se por meia hora.

 

Era como se fugisse para longe da vida, que levava.

 

Ondina não se concentrava nos estudos, nem nos afazeres domésticos ou no que era comum às jovens na idade dela, como experimentar roupas novas ou ir ao salão de beleza. Preferia ficar em casa observando selos de outros países, transportava-se para outros lugares por meio desses pequenos pedaços de papéis postais. Se, por acaso, estava na cozinha, ficava a observar a fumaça se dissipando, envolvida pelo aroma dos temperos.

 

- Ondina, esse arroz vai queimar, filha!

 

Era distraída a Ondina.  Além disso, demorava a agir. O desejo custava a criar corpo. E quando percebia, o momento havia escorrido pelos dedos. Por isso, vivia angustiada.

 

- O que há de errado comigo? Por que sou tão tonta?

 

- Você não é tonta, minha irmã. Essa sua inclinação para sonhar deve ter alguma utilidade. Use isso. Traga seu sonho para a vida.

 

Ondina ficou remoendo as palavras da irmã mais velha de trazer seus sonhos para a vida real. Foi assim, que procurou formas de traduzir esses sonhos que costumava ter acordada. Com uma máquina fotográfica nas mãos, saiu clicando em cima de tudo que a fazia sonhar: pássaros, flores, pessoas.

Até que um dia, suas lentes estacionaram em alguém que sonhava igualzinho a ela. Sabia disso pelo seu olhar perdido, o sorriso sem motivo, a serenidade aparente.

 

- Posso lhe fotografar, cavalheiro?

 

- Fique à vontade, mas não vou fazer pose.

 

- Quero fotos naturais, não se preocupe.

 

E assim, entre muitos clics, os dois foram sonhando para sempre!

Mônica Serra Silveira nasceu em Fortaleza, no Ceará, em 10 de julho de 1960. Formada em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Já publicou 11 livros, sendo 3 de contos (Eu Conto, Eu Conto 2 e O Prêmio); 3 de poesia (Janela, Quatro Estações e Versos de Amor) e a Antologia do Papo Literário. Participou também das antologias Do Amor, Música e Poesia; Cadernos de Poesia; Valores Literários do Brasil; Prêmio Ideal Clube de Literatura; Estações da Palavra; O Conto Fantástico no Ceará - O Cravo Roxo do Diabo e Segundo Pensamento. É membro da Academia Feminina de Letras e da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. Atualmente, é editora e repórter do Programa Papo Literário da TVC, atuando também na edição do Jornal da TVC e programa Crônicas do Ceará, da mesma emissora.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite