MARCIA PFLEGER
 POEMA

PICNIC UNDERGROUND

 

Cortar fora os olhos com um volteio de krav magá.

Nem distar pela janela as mangueiras ensuquecidas no pomar alheio

nem ejacular os olhos pelas pernas da filha do vizinho

(ela usa a cerca elétrica como meias de redinha)

impossível – impossível tocar.

Gula sexo e inveja:

a voracidade do que entra e do que sai pela boca é a mesma.

Eu faria um turn out com um fusca 67

Acrobacias numa árvore de mangas só pra espiar pela janela

Jogaria uma pedra da vesícula com um bilhete enrolado convidando-a para um picnic underground no porão do bar.

Mas aí a tia Dilce (sim, ela mesma, mora comigo, o sobrinho amado) esticaria seu cabo submarino da garganta até meus ouvidos

- esquema de injetar o grito no córtex, you know? -

e 20 helicópteros em conjunção solar derrapariam no espaço

com morteiros apontados pra mim.

Sustente uma ereção com isso, quem?

Agora o relógio mingua perdendo segundos de sangue gota a gota

tac tac tac (num balde esmaltado).

Todos os olhos do mundo em cima de mim e a tia Dilce me arrastando pelo piercing do nariz.

O mundo – e a tia Dilce

O mundo – e a tia Dilce

O mundo – e a tia Dilce

Afinal quem se importa com uma paixão adolescente pela esfinge que usa meias de redinha pra apanhar meus olhos do tamanho de goiabas?

- O mundo, a tia disse.

(capítulos II e III geminados): Fazia uma manhã quase helvética quando o pequeno urso saiu a passeio. O dia estava lindo para uma selfie e todos querem fingir uma prainha só pra quicar nas redes sociais neonazicolunistas.

(epílogo): Depois de arrancar discursos até dos capitólios, encho a mochila com os cadernos encouraçados onde escondi as bobagens que...

A vida brincou de mim enquanto eu brincava ser uma poça d´água.

Na casa ao lado, você estará olhando à janela sem nunca saber o nome de todas as constelações que batizei por teus olhos...

Do lado oposto

estou eu

indo embora.

 

 

SALVO-CONDUTO

 

e se descobrirem teu coração enfartado de poemas

e se quiserem te salvar deste engodo de ser poeta

e se quiserem te esmerilhar com eletrochoques

e te empanturrar de cotonetes e analgésicos

manda às favas com vitrolas e bigornas

manda plantar tubérculos no cimento

manda escovar babuínos da malásia

e se te empurrarem pra uma

tenda de oxigênio alheia

procura rapidamente uma fresta ou

leva um canivete camuflado

entre as unhas

 

 

HÁ UM MISTÉRIO ENTRE NÓS

 

Há um mistério entre nós dois

não decifrado no marulhar do riso

Um cimento de concha...

Alguma coisa de pérola e de dor

entre nós dois.

Um piercing

na língua da ostra

 

 

PRIMEIRO BEIJO

 

O primeiro beijo aconteceu rente ao portão rendado de ferro, na frente de casa.

Quando a gente era criança e se amava, brincava de pega-pega e depois, muito depois, a gente se pegava de maneira diferente. Com o langor da língua, o gosto de aço do seu aparelho ortodôntico, à maneira dos amores de rapina – enlaçando febrilmente os corpos no que desse pra aproveitar.

Pai e mãe nos flagraram naquele tipo de beijo em que os seres se misturam. Aí você devolve as pernas dele, pega seus braços de volta, a língua ainda meio engatada no aparelho...

Mandaram-me entrar enquanto você partia olhando pra mim. Num relance, vi você fazer uma pirueta alegre na esquina, feito uma pipa colorida ao vento.

Entrei e sentei no sofá da sala, pai e mãe junto.

Ambos me olhavam acusadores.

Eu no meio.

Repentinamente me senti como um nariz entre dois grandes olhos (estrábicos). Esperavam que eu farejasse uma desculpa. Não o fiz.

Mas no sermão que durou até a madrugada, não ouvi sequer uma palavra. Só pensava em como a lua estaria linda lá fora... refletida nos seus olhos em algum lugar...

Marcia Pfleger (pronuncia-se Flêguer) é escritora, tradutora e jornalista; mora em Curitiba (Paraná). No final de 2015 publicou seu primeiro livro, Caneca de Café com Versos, pela Editora 7Letras. Foi citada no Dossiê Wolffianas - Mulheres que Escrevem nos Séculos XX e XXI, organizado pela UFPR, como uma das revelações da literatura contemporânea. No programa nacional de rádio O Sul em Cima, teve por duas vezes seus poemas declamados pelo cantor e compositor Kleiton Ramil (da dupla de MPB Kleiton & Kledir). Também foi destaque do 8o. Prêmio Poetizar o Mundo com Arte e já teve contos e poemas publicados em diversas revistas e sites de literatura. É autora dos blogs “Unha que risca a lousa” (poemas e contos) e “Prosálias in vitro” (prosa poética).

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

Conteúdo protegido pela Lei do Direito Autoral nº 9.610/98. 

Editora Responsável

Lia Leite