LÚCIO FLÁVIO GONDIM
CRÔNICA

Lúcio Flávio Gondim da Silva, 24 anos, mestrando em literatura. Fez partes de trabalhos na área de letras como o "Coletivo A Literação". Gosta de tentar escrever coisas.

Zeitgeist: postites de literatura

 

O livro foto, o livro post, o livro like.  O livro lido, o livro curtido, o livro compartilhado. O livro que reúne um monte de gente – de novo, como se nunca a fogueira fosse substituível; o livro comunhão feito uma hóstia que todo mundo compra e come em casa e depois vomita junto numa livraria um tanto chique um tanto underground – as livrarias são esgotos com ar-condicionado; o livro que todo mundo que não foi pra nada disso vai ver e ter inveja pela tela de um celular –que é uma publicação de letras em flash costurada de luzes.

O leitor ruim, o leitor bom, o leitor. O leitor que leu, o leitor por vir, o leitor desistente. O leitor que perde o livro e dá graças a deus – e deus é um grande personagem de um livro que ele não leu, mas que leu a si mesmo em voz alta ao leitor numa tarde de domingo; o leitor especialista em ser especialista de especialistas engrandecedores – dos livros cuja leitura se iluminará como quem carrega um led clip ajustável a partir do Outro,mas ainda é dia e ele poderia muito bem olhar com seus próprios olhos; o leitor que lê tudo o que quis, queria, quererá –mas que não tá entendendo muito bem direito porque ele não vai entender se não ler os teóricos. Será?

O autor que morreu, o autor que tá vivo, o autor que tá escrevendo na rede social. O autor sem corpo, o autor sem dono, o autor sem palavras. O autor que impulsiona a publicação na vida da massa – porque precisa de algum tipo de imprescindível outdoor; o autor que tá de boa – mas ninguém tá de boa, se tivesse não escrevia, não tava vivo, não queria os dois seresvivos-mortos dos parágrafos anteriores; o autor que entra num curso de pós-graduação porque essa pode ser uma grande oportunidade – quando os cursos de pós-graduação pegam algumas oportunidades, jogam pra cima e a gente vê esses líquens celestes se esvaindo por cima de nós como uma poesia que não se entende e a gente acha um jeito de sentir pra não ficar sem ter a coisa já caída.

O mestrando do 1° lugar, o doutorando que passou por último, o graduando que é ouvinte. O mestrando que sabia quando passou, o doutorando que tá mudando tudo, o graduando que ainda vai descobrir que é da outra área dentro do mesmo curso. O mestrado que escolheu um tema ótimo para trabalhar – mas este tema era legal mesmo quando ele estava no perfil virtual em que posta fotos de capas e resenhas de livros, onde ele existe e planeja um piquenique no bosque em que estuda aquilo que agora é difícil; o doutorando sacando que não é culpa de ninguém os pés elevados, as mãos alteadas, o tronco arrebatado aos céus do pesquisador de literatura – o mundo é assim, um chiste e um embuste como um gênero literário; o graduando que vai pra linguística mesmo porque essa predileção pela manifestação não-nomenclaturável de todos os sujeitos que antes eram sócoisas não é possível – e dói, rompe, pede um prazer sem cama.

A revista de literatura, o jornal de cultura, a bienal. A revista de literatura que é menor que um almanaque e maior que um pedido de ajuda de ônibus. O jornal de cultura que fala de literatura num espaço de horóscopo, pois é este o espaço dela agora, mesmo, como a palavra “hodierno” no vocabulário. A bienal que atrasou um tempinho, mas que tá no tempo certo discutindo porque a gente tá sempre no tempo errado das ampulhetas, mas num centro de convenções ótimo. A revista de literatura que convida para escrever – e escrever sobre literatura é como dobrar um elefante já sabendo que ele move a tromba e encosta lá nos pés, mas mesmo aí vê-lo deitadinho dá um gastura gostosa e pertinente; a revista de literatura que não existe mais – quem é vai comprar? quem é que vai apagar as gravuras de uma pessoa massa que passou no edital e se fixar nos pontinhos pretinhos e miúdos que não formam nem um caligrama, sim uma palavra; a bienal que é o mais parecido com o que Borges chamou de Parangaba/Mucuripe dos livros – um foguete para o planeta em que a gente não tem consenso sobre nada não, mas também não elege herois e os ritos servem principalmente para gente se desritualizar e ser alguma coisa que abre um livro.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite