A escritura do desache

 

Confirma-se, depreciando. Busca-se: é mais do que deve. Pois ela talvez seja dessas coisas que merecem ser encontradas, mas não procuradas.

Maurice Blanchot

(...) Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu - meu mistério.

Clarice Lispector

Não sei se o amor é dessas coisas que se pode procurar.

Desconhecido num app

 

 

Há dobras de ruas que vendem remédios, outras que vendem livros. Numa cidade alheia, eu passaria pela fresta sem reparar no seu conteúdo; ela, todo carinho e estranhamento. A esquina, no entanto, tinha uma banca repleta de obras e, quando eu voltei o rosto, perdi da jornada a busca. Consegui, desistindo, ser encontrado.

 

De cinco e de dez reais, novíssimos e canônicos, conhecidos e estrangeiros, os títulos me aliciaram. Ninguém sairia sem beijo dali; só com o encontro sem volta, a rua estanque, a bagagem extra no avião. Duas horas depois, subo um morro de Zona Sul e a sacola cheia de clássicos está lá, no começo do caminho.

 

Agora eu tenho em casa um cabedal de cabedais, um centro, o vendedor de ouro e o próprio brilhante. Não li, quase não consegui parar e escrever este texto. Padeço recentemente de uma profunda tranquilidade diante do caos e quero mais é ser embargado pela leitura que escrever nela minha fogueira. Essa metáfora da fagulha é muito aderente; vou usá-la para falar de esbarrões, sebos e vidas em estado de glória.

 

Permaneça parado diante da brasa; bote o seu - o seu pé, não grite e nem sopre; leia um capítulo inteiro com os dedos queimando. Tenha todo este respeito pela lei e não se mova diante da porta: a literatura é o direito à morte, o nosso, o dela mesma, o do sentido, que é quando a gente dribla os comandos e enche vida nosso rastro. Não dá pra entender, pôr a régua, amarrá-la na cláusula social mais necessária. Todo livro é um fantasma.

 

Numa cidade cheia de memória, presença boa de cadáveres, eu recolhi um balde de dispêndios e destinos: quando estou num grupo, já estou em outro; quando estou no sudeste, já estou no nordeste; quando estou fechado na obra, já estou na esquina do mundo. Daí que não busque o peixe; deixe o nada molhar: conheça o rio. A poesia nos caça e, sem procurar, já achou. As três citações do começo deste texto me aconteceram no mesmo dia, no espaço de cinco horas e com elas eu argumento pra ti que a arte ainda volta, desce, empina, cita um poeta, rebola, vai pro grupo de estudos com o cabelo molhado, abre uma nova mini editora, entra numa banca de jornal porque uma grande livraria fechou, tira o temer, não sabe quem vai botar, pinta a unha e termina a crônica.

 

Lúcio Flávio Gondim é mestrando em literatura pela UFC. Fez partes de trabalhos na área de letras como o "Coletivo A Literação". Gosta de tentar escrever coisas.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite