Bar do Matias


“Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta./Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada/E com o desconforto da alma mal-entendendo./Ele morrerá e eu morrerei./Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos./A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também./Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,/E a língua em que foram escritos os versos”. Foi com Álvaro de Campos que pensei em começar essa crônica. Com ele começarei. É com esses versos porque foram eles que me assaltaram ao passar por frente a essa nesga poética que é o cotidiano. Eles me escolheram, eu obedeci. É assim com a poesia. Resta-me, mal podendo, fazer o melhor com que tenho, que é muito e eu é que corro o risco de estragá-lo. No mais, a história é simples: Um bairro tradicional, um bar tradicional, a morte mais tradicional ainda. 

           

O bairro chama-se Campo dos Velhos. O nome intrigante, a história do nome nem tanto. Quando vim morar por aqui, aos dezesseis anos, vim, como se pode dizer redundantemente, “por circunstâncias da vida”, mas o certo é que me acostumei com o local e escolhi morar por aqui apesar dos seus preços imobiliário de capital e seu ar de província. Talvez fosse isso que me encantasse: ele pretendia crescer, mas mantinha seu quê de cidade pequena e, para isso, investia pesadamente na manutenção de clãs e nas personagens-tipo, como a louca, o feiticeiro e por aí vai.

           

É aqui que começa a minha nesga poética: Havia um dono de bar estabelecido há muitos anos no local. Dele eu pouco sabia além de que seu estabelecimento tinha fama de mal frequentado, coisa que o aspecto sombrio, o odor de xixi e os bêbados escorados nas paredes encardidas validavam. Parecia que o bairro todo havia crescido, os campos se tornaram casas, prédios, supermercados, contudo, o bar se mantinha, fiel nos seus lodos e odores. Fiéis também as gerações que por ali passavam. Bêbados pais, bêbadas mães e bêbados filhos. Ano após ano, os tamboretes por frente ao bar e a figura do tal Matias (era esse o nome do dono do bar) por trás do balcão a servir a fábrica do tempo.

           

Eu nunca o vira, eu nunca nem olhara para dentro do bar. Vez ou outra, no máximo, arrisquei um “canto de olho”, mas nada que não servisse apenas para reforçar a minha impressão de que ali havia uma espécie de buraco ou caverna, dessas a que uns  iam buscar e outros traziam-na dentro de si. A melancolia tem várias moradas.
           

Mas, voltando aos versos de Álvaro de Campos e não voltando ainda a eles, o fato todo se deu quando o tal Matias faleceu. Lembro de chegar com as compras para o almoço e de estar desfazendo o pacote, quando a empregada me disse que havia morrido um velho dono de um bar, que o encontraram morto depois de dois dias em que ele não abria o estabelecimento e que o acharam deitado no chão com as mãos a segurar o aparelho de aerosol. Na hora, imagética que sou, veio-me a silhueta gorda e cinzenta, que era o que eu sabia dele. Imaginei-o de olhos vítreos, uma estátua de sal, um morador de Pompéia tocado bem no ombro pela morte, feito aquela brincadeira infantil em que alguém diz “estátua”, mas, desta vez, ninguém viria desmanchar o feito.

           

Ali, parada, ouvindo a história, agarrei-me rapidamente às compras, ao almoço, a mão leve da vida que revertia, pelo menos para mim, o processo de sal ou magma. E continuei meu caminho em meio a exclamações, essas exclamações vazias que servem para nos afastar das coisas.

           

Durante o dia, ainda soube uma notícia ou outra: alguém do bairro colocou nas redes sociais uma foto do tal Matias com um texto em que alguns lhe laureavam como figura ilustre do bairro e outros lembravam dos quebra-queixos comprados de suas mãos. Aí fiquei sabendo que o bar já fora uma mercearia (uma bodega, como costumamos chamar por aqui) e imaginei que, provavelmente, havia sido um dia, um lugar mais claro onde crianças entravam e compravam doces e derramavam sorrisos entre a tristeza dos bêbados de sempre. E imaginei-o atendendo às crianças com aquele sorriso da foto e imaginei as crianças a entrarem aos pulos, as moedas a cantarem nas mãos, os dedos ansiosos a apontarem para potes coloridos de onde saiam guloseimas, pequenas porções de felicidade.
           

No mesmo dia, porém, soube que o tal Matias, durante anos a fio, havia repetido o mesmo ritual com outras crianças, mas, ao invés de doces, as mãozinhas ávidas recebiam bebidas e drogas. E pensei nisso tudo e deitei tudo isso fora, meu coração feito uma caverna.

           

O dia passou, a morte foi engolida pelas contas de água e luz, as crianças que iam para escola, as compras do almoço e as visitas dos agentes da SUCAM. As calhas de roda voltaram a funcionar, girando no seu constante movimento de esquecer. Vez ou outra, naquela semana, passei por frente ao bar do tal Matias. Continuava tudo soturno, porém, desta vez fechado. Parecia que, com a morte, tudo havia se guardado atrás daquele portão enferrujado e daquela porta entreaberta. Parecia que o corpo ainda estava por lá, com a máscara do aerosol na mão, a espera de que se revertesse a brincadeira da estátua. No entanto, às pessoas passavam, os carros corriam, os cachorros cheiravam e tudo não passava de um acontecimento quase que imaginário.

Esqueci e, se não esqueci, acalentei essa morte, como costumo fazer com todas elas, sejam mais difíceis (como foi a da minha avó) ou mais fáceis (como a do tal Matias).

Até que, no final de semana, minha mãe, que veio visitar o neto, em meio a uma conversa banal, conta que há uns dois dias, os bêbados que frequentavam o lugar tinham colocado flores no portão da casa, levado o balcão para fora do estabelecimento e bebiam ao redor.  Mais uma vez, foi uma imagem que me socorreu: os bêbados ao redor do balcão, bebendo como quem vela o corpo ausente, um corpo parado de máscara respiratória na mão, um corpo que esperava em vão. Ou, quem sabe, aqueles homens, numa espécie de fidelidade comum aos cães que ficavam a espera do dono mesmo depois deste morto, adivinhavam, previam, profetizavam.

           

Nessa altura, lembrei dos versos: a morte sobre todas as coisas, feito o pó que nós mesmo fabricamos ao nos movermos, fazermos as compras, prepararmos o almoço, escrevermos versos, bebermos ou vendermos bebidas.  Todos nós a espera da mão que nos paralisará no último ato, na última poeira que faremos antes de voltarmos ao pó. E não há céu, inferno, imagem ou palavra que nos desvie, que nos console, que nos diferencie. O poeta sabe.

         

Um dado interessante: o bar ostenta (ainda), sobre as paredes antigas e escuras, uma tabuleta novinha. Com cores claras e em letras claras está escrito “Bar do Matias”.
           

A vida é poética. Às vezes, desgraçadamente poética.

 

 

 

Liciany Rodrigues é de Sobral-Ce. É mãe, professora, estudante, dona de casa e, quando a poesia permite, escreve.

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Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Lia Leite