JORGE PIEIRO  
POEMA

Jorge Pieiro é contista, poeta e viajante. Nasceu em Limoeiro do Norte (CE), em 1961, e vive andando pelo mundo, de verdade, ou com a imaginação. Foi balconista, cobrador, datilógrafo, bancário, quase engenheiro químico, roteirista, professor de literatura e já exerceu cargos no Ministério da Cultura e na Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. Atualmente, ministra cursos em seu Projeto EscrevLer e blá-blá-blá.

MARFIM PARA O SILÊNCIO

                                                                                  

nunca, novamente

 

esta palavra devoradora de instintos, um soluço terno

sem algum acaso.

acaso,

o que resta da pálida linguagem de cera?

o vestígio?

 

que não seja um mais de espera o alimento da solidão

perdida ao mais intenso desejo de representar a coragem 

ou a covardia suprema da morte. la vida no vale nada

se desisto e logo sou contrário ao que dela resto.                                                               

nada

 

 

de uns

 

ainda – como quis – não beijei o corpo do fantasma

não recebi a benção do Tao

surgida à margem do silêncio

no ato enquanto plantava o deserto

ainda – como quis – não tombei do corpo o espasmo

com a negra, esse amor que levaste ao cúmulo feito um acaso de sons calados e desfeitos

ainda – como quis – não tenho mais nada revogado

com a morta! e o que me valida:

ainda –  essa tristeza de arame vincando a pele, por ela

ainda tenho

 

as mãos os pés o intestino a bílis a enxaqueca e a farta lição de casa os artefatos as cinzas da inquisição as aleivosias o ciúme a crise o torso do acrobata de um livro antigo a pedir desculpas e a continuar caindo no céu da pátria que a chão se abriu o latifúndio do joão medido a palmos a bananeira os abutres e a colina a amargura o gim e a conquista o pus e a cisão mas também a alegoria a fantasia e o carnaval infestado de selenitas a coorte dos antigos e dos amigos o lapso e a mácula a pereba o estrume da raça e o anseio nefelibata cage a fé o demônio e a imensa satisfação de sobreviver digamos aprisionado nos espelhos a cura e a fúria mas enfim tenho ainda o fim em minhas mãos a arma

ainda tenho

o grilo no automóvel passou por mim passageiro feito a infância e eu não vi a rua molhada de passos tristes passos da gente sem face pois não vi o sol crestando a face dessa gente a quarenta graus à sombra ou ao gelo de trinta negativos no breu branco do silêncio isso eu não vi por isso não tenho mas

ainda tenho

no entanto desses como a que perdi só não vejo a cabeça que encorpa incorpora e poreja mas seja assim assimilar com a verdade a verossimilhança a imensa pureza de ainda ter o cravo na pele incrustado do que dói como a ausência por fim no que

ainda tenho

as mãos com essa arma que retribuirá o fel por nada mesmo que essas cabeças insistam de avestruz esconder a febre o olho o bafo das narinas a cicatriz o espelho e a alma a ruga o sestro a dor a careta e o riso o privilégio do esgar a varíola a pele ressequida a madeira da cara o óleo a penumbra a sombra e a silhueta o cocar das alucinações ou o que se perpetua na longevidade das tartarugas dos ratos de gaveta dos axiomas falsos nas mentiras nas vestes seculares por fim nas falsas visões e insensatez por mais que rísivel e veloz costumo apontar com as minhas mãos que

ainda tenho

 

 

alinhavo final

aquilo que insiste na cara pela sua grandeza bem ou mal se franze e óbvio e descortinado nos mágicos o pensamento é mais ágil e o homem que passa com os seus sustentáculos oculares insiste na captura do mito em fúria e em expansão se desfia ao abrir a escrita de sua lógica – não se injeta vida pela veia do pulso sedutor do imprevisível tudo o que passa é colapso – e o rapto do poema é a paga sem desejo e é a pele do coração roído ou doloroso quando em ser tal como um símbolo vadio ao delírio destino é a rota desprotegida nas entrelinhas da razão

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite