IZABELLA ZANCHI
POEMA

ZAL PATERA

 

Tristezas vaporosas são rosas de gaze lutuosas.

Dolosas rosas, os ocasos; desenhos perfumosos,

Ázigos, misteriosos: êxtases fogosos, preciosos

De leveza virtuosa, lisa. Rosada, melodiosa –

 

Quisera, vesuviana Zal Patera, a azúlea clausura

Reluzente e venusiana, quisera a exata beleza

Zaranzando, a dolorosa, sob as luzes, sua leveza

Lagrimosa; rosa de uma desértica cinosura –

 

Asas zumbem no zênite amoroso (fascinação!);

Vozes calmosas, crisântemo azul. Desaparição.

(SÉRIE LIVRO DAS LIBRAÇÕES)

 

 

SETEMBRO

 

 

Setembro floresce com suas almas lúbricas, nuas

Estou sob o dossel rosa, à tua espera, Lúcar, tão tua –

 

Os pássaros fugiram enregelando a minha alma.

 

Oh manhãs esgazeadas de primavera, amorosas!

No pó dos espelhos que flutuam há asas dolorosas,

Jardins que escureceram, noite triste, noite calma:

 

Aonde andará meu Lúcar, aonde expiará a sua alma?

 

O meu amado de gaze, tão branco, engoliu-o esta lua?

Dragaram-no as estrelas, amantes cálidas, raivosas?

 

Meu corpo febril repousa sobre as flores virtuosas

Num véu de rendas, cisne pálido de boca crua.

 

E meu útero abriga a primeira rigidez da morte –

Espero-te, Lúcar, com as rosas do coração!

 

Ele virá? Os círios palpitam as orquídeas da sorte;

Meus olhos esperam-no, lírios vertendo paixão.

 

A lua fulgiu; os espectros rondam, álgidos, brancos –

 

É manhã, é manhã cálida sobre os meus róseos flancos:

Eu sou a Beatriz da morte, a cariátide da ilusão.

 

Pássaros cantam no norte; Lúcar, o triste amado,

O amante branco virá com o primeiro clarão?

 

Esperarei, esperarei; a noite é alaúde silenciado.

 

Ouvi as vozes das estrelas chorando no infinito.

Esperarei o amado descer da nave do mar aflito.

 

Do sol que ele virá? Cairá sobre mim com os ventos?

Desci os abismos; escadas lúgubres do firmamento,

 

Morrerei; Lúcar é a casa dos tristes sentimentos.

 

Vai ele na nave das chuvas qual um menino contente;

Doce, come as rosas de Mariela, a amante presente:

 

Seus corpos alvos rodopiam nas estrelas e crescem

Giram nos vórtices da noite fria e desaparecem.

(SÉRIE RESPIRAÇÃO BOCA A BOCA)

Izabella Zanchi: Nascida em 1956, vive e trabalha em Curitiba. Atuou como atriz, dramaturga e diretora de teatro, migrando nos anos 80 para a área das Artes Visuais (artista, curadora e orientadora em oficinas), com trabalhos em pintura, gravuras em metal (ponta seca), linóleogravura e monotipia, sendo criadora da técnica hipertipia ou técnica do sudário (agregação de solvente, variação da técnica de monotipia). Seus trabalhos foram expostos em diversas mostras (nacionais e internacionais), integrando acervos como o do Weisman Art Museum. Em 2013, Shana Lima Adayme escreve uma monografia sobre o trabalho da artista para o Curso de Especialização em História da Arte Moderna e Contemporânea da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, intitulada "O Retrato na Gravura de Izabella Zanchi". Em 2006 fundou o grupo Salaprofunda, rebatizado de SALA em 2008, no qual atuou como artista conceitual e curadora, participando de projetos e mostras como O Espelho e seu Duplo, em 2010, no Museu da Gravura Cidade de Curitiba. Izabella publicou o diário O Garçom B em 1998 pela editora Rosa dos Tempos (selo da Record), sob o pseudônimo Alma de Assis; escreve poesia desde os dez anos de idade, tendo sido publicada em antologias da Revista virtual  FÊNIX LOGOS, em 2013 e na revista Mallarmargens, em 2014 e 2016; participou do grupo poético curitibano Meninas que Escrevem em Curitiba. Está com um romance inédito, sob o mesmo pseudônimo, aguardando editora, bem como com dois livros de poemas.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

Conteúdo protegido pela Lei do Direito Autoral nº 9.610/98. 

Editora Responsável

Lia Leite