FÁTIMA VALE
POEMA

I CUNNUSCLASTA 
 

didascáli(d)a: só uma vulva em cena a lembrar sam ainda a sentir os dentes de jerry uma vulva-vale entre alpinas coxas o corpo cenário em sentido único como o boulevard de onde barthés nunca voltou a voz feminina sai de uma boca que está nas costas de um homem o homem já nem está

é só o fato vazio

afinal 

mundo vem pôr

mundo vem tirar

apanhar uma menina pequenina

um carro maior

um rapazinho já com bola

uma fila de fome

uma cantina social

uma vulva mutante clarabóia com vidros  em torno de si

paredes duplas relógios pendurados civilização progressiva

um comboio  entra e sai

pouca-terra pouca-terra muita-sede muita-sede

meninos nascem a atirar pedras

 

um bando de pretos voadores constroem uma muralha da china

entre o ânus e a vulva

e as suas avós chamam-nos de dentro as vozes ecoam na cabeça deles

  

o ânus tornou-se um lugar clandestino e o amor de patas no parapeito

lança o hálito e resvala

 

uma vulva na cabeça de cada refugiado os chama para reiniciar a vida

cada um entra e sai do seu destino

  

uma gota de sémen um gueto

uma verdade precoce uma guerra de ponteiros

 

o do tempo ponteiro maior no sangue

o do espaço  ponteiro menor

nos ossos

 

e AGORA aqui eu a mil léguas de ti

lambo-me guetizo o pensamento bato contra as paredes da minha pele

cresço nas próprias mãos

e a luz seca-me

alguma boca me engole para um lugar mais fundo

uma vulva cada vez mais imaginária

 

  

A VULVA GUÉISER É REAL

 

desabou um eurodeputado um banqueiro

um oficial da marinha

que vai dar os olhos no porto de baltimore e ao fim de seis meses

chega à casa onde o filho já anda expeliu a puta que paga as contas da mãe e a cura pois sabe de medicina

 

u m l e i t o d e s é m e n e s c o r r e u m a b a n d e i r a d e p a z

e m c a m p o m e n s t r u a d o

 

fátima vale

filo-café “os guetos”,

4 de março de 2017  

Fátima Vale cosmopolita | actriz | proetisa | activista | vulpes

a sua placenta foi enterrada em oshackati, namíbia, no ano comum de 1975. Os pais são transmontanos de serapicos, bragança, portugal. expressa a língua mirandesa. publicou as obras azimute (temas originais, 2011), ‘spabilanto (incomunidade, 2012), colostro das vitórias (edições sem nome, 2016). tem colaboração dispersa nas revistas infernus, incomunidade, cultura entre culturas, mallarmagens, zunái, tlön, piolho, ideia, entre outras, estando presente em várias antologias de poesia galegas e portuguesas. está no teatro profissional desde 1995. em 2010, abandona as estruturas de teatro convencional e de descentralização e forma o projecto spabilados-teatro hedonista. movimentou a arte-pãnica, fundada e afundada por alejandro jodorowsky, fernando arrabal, roland topor. colabora com vários grupos de teatro. Em 2013 sobe à montanha e privatiza-se para derrubar muros em torno os olhos. desce em 2016 com saudade de que belas mãos se lhe estendam. desde 2001 que é mãe, onde trabalha a tempo inteiro.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite