NÃO TEMEREI MORRER EXCOMUNGADO

À militância do grupo “Católicas pelo Direito de Decidir”

 

 

Nestes versos tabu enfrentarei

Que tanta gente pobre deixa morta.

Jamais em meu silêncio aplaudirei

Uma lei que condena quem aborta.

Pra salvar as mulheres eu direi:

“Um Código busquemos mais humano!

Não quero obedecer ao Vaticano!”

Se livres pra pensar nos diz o Estado,

Com dogmas nossas mãos nos tem atado

Nos dez pés de martelo alagoano.

 

Médicas e juízas não têm medo

Quando sentem prenhez indesejada:

Pagam por segurança e por segredo;

Fácil fazem a escolha interditada.

Tal não se dá co’ a pobre favelada:

Ela arrisca seu corpo a grave dano:

Proibir não impede que aconteça

E que só gente pobre assim faleça

Nos dez pés de martelo alagoano.

 

Na Europa é direito garantido,

Como aconselha a sábia OMS,

Mas aqui nosso Estado emouquecido

Jamais ouve quem tal drama conhece.

É tabu nos palanques omitido

Desejar reduzir tão grande dano,

Pois se teme um IBOPE leviano.

Portugal libertou-se em referendo

Debatendo na praça o medo horrendo

Nos dez pés de martelo alagoano.

 

O Uruguai logo ali teve Mujica

Que o problema enfrentou com tal coragem:

A mulher oriental não se complica

– O governo lhe dá justa abordagem.

No hospital, livremente ela se explica,

Conselhos recebendo quanto ao plano,

Mas, se não a convence o bom decano,

A semente da estufa é removida,

Da mulher se salvando a jovem vida

Nos dez pés de martelo alagoano.

 

Portugal e Uruguai neste caminho

Estatísticas viram reduzidas;

Derrotaram o tal tabu daninho

Protegendo das jovens tantas vidas.

No Brasil feito igual eu adivinho,

Basta não mais temer o Vaticano

Nem fariseus iguais Feliciano.

Não temerei morrer excomungado

Após o bom combate ter travado

Nos dez pés de martelo alagoano.

Edson Amaro de Souza

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite