Um blues para Guimarães Rosa

 

Agora é tarde pra ser feliz.

Nauro Machado

 

        

Alguém passou por aqui. Sinto cheiro de carne. A vida não tem nada de nuvem. Olho meu pênis ereto, ouço a chuva no jardim de inverno: o sertão é tão grande, eu pequena vereda. Alguém passou por aqui, disso estou seguro. A vida não tem nada de nuvem. Olho o gato preto inexistente, sei que tudo não passa de um romance policial. Foda-se Freud, porra! Não matei ninguém na madrugada, caralho! Sei que não matei. Por quê insiste em pairar em minha órbita essa maldita dúvida? Por quê? As dobradiças da porta estão enferrujadas. Sei que alguém passou por aqui. Onde estão as armas que usei na madrugada passada? Onde está o verde e as canções dos lábios do meu amor? Não sei. Ouço a chuva de meses atrás tiquetaqueando nas telhas. Alguém passou por aqui enquanto eu vagabundeava pelas estrelas. Esqueci tudo, mas sei que não cometi grandes crimes. Eu só queria compor um blues para Guimarães Rosa. Um blues agalopado. Um blues ajagunçado. Um blues. Um blues e nada mais. Sinto o sol da tarde. De blues já não gosto mais. Vá tomar no cú Freud! Vou queimar aquele livro de psicanálise. Quem foi que me espancou na última madrugada? Aquela bonequinha do BEC! Branquinha, tosca e de pescocinho arroxeado. Fiz um poeminha pra ela: qual o animal que te fez tão feliz ontem à noite? Ela nem me viu. Segui meu caminho. Por aí. Brincando de feitiçaria, remexendo nas coisas, bulindo no coração e nos genitais dos astros. Faz tanto tempo que não leio horóscopos. Faz tanto tempo que não viajo. A vida é um curto-circuito. Uma inflamação aguda. Um sertão esbravejado, inventado, intoxicado. E tudo o que eu queria era arrancar um sorriso de uma rosa. Ser músico por um instante. As peças do xadrez estão perseguindo meus passos. A vida é uma clausura necessária. Onde estará a arma que me acompanhará na próxima noite? Quem passou por aqui? A quais Senhores pertencerá esse gato preto e os seus sonhos encruzilhados? Sinto cheiro de carne: a vida está tão cinza nesta tarde. Minha oncinha falou de reencarnação e outros baratos afins. A vida não tem bula, mas tem fábulas. Ainda pude sorrir. Não sei tocar gaita, só punheta. O cavalo me aguarda com um olhar triste e vago. Ando tão sombrio ultimamente. Tão mergulhado na escuridão deste sol que fabriquei. Há um vazio entre nós. Há uma tirania chamada deus no centro do mundo. Há uma birosca de vender frangos assados embaixo do meu apartamento. Há tantas coisas mais entre mim e o sertão. Gostaria mesmo era de incendiar um blues para ti, Guimarães. Lapidar um acorde, um interlúdio ou uma rosa. Talvez uma partitura de verbos. Do nada. Quem sabe. Do barro. Do excremento sagrado de Eva. Agora finalmente recordo: sonhei com o licor da buceta de Eva. Foda-se Freud! O sexo não é tudo. O amanhã não existe. Agora a vida é um cigarro implodindo meus pulmões e possibilidades. O futuro será o blues que eu não fiz ou a rosa que murchou antes que minhas mãos a colhessem. Não falarei de meu amor hoje: o mundo o espancou. Fui frágil. Encostei a cabeça na pedra da sinceridade e deixei girar. Quanta ingratidão respira no meu egoísmo, no meu passado, no meu escapar por entre os dedos carrancudos da vida. Fechei as janelas faz tempo. Cabelos escorridos na face. Olhar perdido nos tabuleiros. Ideias arranhando o cérebro: unhas felinas. Não sou de escorpião nem de sagitário. Exploro os meus amores até que sangrem. Do amanhã nada sei. Da dor algo se por acaso. Ninguém mais me interessa. É domingo. Passei a chave na porta. Ouço a chuva que já faz tempo caiu. Farei um blues ou assassinarei delicadamente a rosa que não nasceu. Quem passou por aqui e deixou seu cheiro? Seria melhor ir ao cemitério e pescar almas apodrecidas na gema escura da terra. Quando os homens ficavam grávidos, antigamente. Quando. Quando! Quando? La concha de su madre Freud! Antigamente. E isso basta. Sinto cheiro de carne. Alguma música para ouvidos nada delicados: eis tudo. Todavia essa música não nos chega. Ou por vir de tão longe dela só nos toca o eco. E se nos chega já é tão tarde que o sol já desponta no horizonte e me encontro dormindo. Será que sempre foi tarde pra ser feliz? Será que não somos capazes de construir uma nave que nos leve para além deste universo que nos condena? Será que nunca serei um bom jardineiro? Talvez eu não possa te entregar o blues que eu não fiz, Guimarães. Passei a chave na chuva e não tenho mais sol nem segredos. Estrela morta na cadência de minha boca. Tudo é tão impuro e a vida é uma ferida. Fidelidade de cão. Tão traído de mim, esgotado, murcho. A vida é uma rua desbotada. A noite uiva e me agrada. A noite é o útero que abriga a angústia dos desesperados. A noite é tão faminta que cansa. À merda Sujismundo! Farei um blues antes de morrer e dedicarei a ti, Rosa. Será cinza o blues. Eco de tiros e sangue. Nada de nuvens ou esterco em demasia. Nada de nada. Apenas o engano o equívoco e a ilusão perpétua. Rio que não seca, lágrima que não brota: em qual chão se enterrou minha raiz? Estou estudando matemática: pálpebras, cílios e outras coisas relacionadas à atmosfera do olho. O olho. Esse mistério que espreita meus delírios alcóolicos e minhas perambulações pelas madrugadas. Talvez uma bruxa talvez Matamoros. De todas as formas não desejo mais a felicidade. Estou bem assim. Posso pelejar com a morte. Nos ataremos com camisas e empunharemos peixeiras e facas. Ou quem sabe disputaremos uma partida de xadrez. Quem vencer morrerá. Antes de morrer poderá vislumbrar o conteúdo do sétimo selo. A caixa de Pandora nos confiou a esperança: ouro de tolo, a melosa melodia da resignação. Eu quero é um blues, sua voz rouca e envelhecida de tanto viver longe de mim. Com as mãos em prece moldarei sua distância. Farei um blues e ofertarei a Guimarães Rosa. Será realmente tarde para ser feliz? Será que sempre foi tarde para ser feliz? Por que você deixou seu cheiro nesta casa? Por isso eu fumo tanto. Por isso tantos incensos inúteis. Nada apaga o que você esqueceu. Sua alma ficou: desvario, fogo, órbita do vácuo. Por isso sei de sua tristeza. Por isso a usarei na composição de meu primeiro e último blues. Quem me dera vir a ser vento, ouvi dizer que virastes rio. Água profunda fora de mim. O mais interior é a pele. O mais profundo e o mais profano: a pele. Fogo, fogo, fogo: outro eu não poderia ser. Sem você. Sem esquecer. Sem um blues para Rosa. A vida é uma mulher disfarçada de jagunço. A vida está sufocada pela impossibilidade do amor. A vida se resume ao absoluto da pele. A vida é um domingo comprido, esticado: fumaça de frango assado que toma de assalto minha residência na terra. Nenhum cheiro sabota sua memória. Estou de novo lhe explorando: eis a minha escravidão. Aceite essa derradeira rosa: ela está morta embora em suas pétalas de vidro ainda se possa sentir a pulsação do horror de meu coração. A vida é tão grande que eu não posso caber nela. A vida é tão inexata que me afastou para sempre de você e dos estudos de matemática. A vida está se suicidando através de nós. Cobaias de deus, marionetes entorpecidas, cavalos possessos. A vida é uma jangada que conduz um náufrago para uma ilha desértica onde não existem velas nem valsas nem lamparinas. Alguém me fala sobre Kardec: a vida é infame e cínica. Deus está morto, quem matará Freud? Os cupins estão devorando as janelas que cerrei com tanto cuidado, com esmero e profunda dedicação. As formigas estão trabalhando numa nova obra de engenharia, após a destruição causada pelas últimas tempestades. A Grande Aranha observa meus gestos. A Grande Aranha observa minha nudez. A Grande Aranha me deixa paranoico. À puta-que-te-pariu Freud! Tem alguém comendo na casa ao lado. Tem alguém morrendo no hospital mais próximo. Tem alguém fudendo nos arredores. Tem alguém fugindo dentro de mim. A vida é algo mais, algo além. A vida é um blues que eu gostaria de compor para Guimarães. A vida é uma rosa que eu gostaria de entregar ao meu amor: caso tivesse algum. Iria transfigurado em jaguar e entre os dentes a levaria, com o rebuliço da língua abriria sua buceta e lá cravaria essa flor. Como se fosse um punhal. Como se eu fosse uma fúria. Como se fosse a primeira vez e... Dói demais despertar. A orelha de Van Gogh ainda está viva no teto de minha casa. Com que mãos poderei assassiná-la? Estranho desígnio o que não se realiza. Pandora seduziu Freud, Eva paralisou minha indiferença. A vida é uma folha morta e a esperança me tornou um bocado pior. Estou tossindo as fraturas incuráveis, os traumas da clavícula e da espinha dorsal da memória. Ossos com os quais arquitetarei um blues inusitado. Outro sertão desejo. Veredas novas. Um ser tão amoroso que os jardins por ele se encantem.  Um ser tão chuvoso que toda sede nele se reconheça. Um ser tão blues que arranque de Guimarães um singelo sorriso. Um ser tão rosa capaz de provocar alegria e insanidade. Um ser tão grande que nós não caberemos dentro. Sonhei que eu era um cavalo e a vida era uma mulher disfarçada de jagunço montada sobre o meu lombo. Ainda sinto o cheiro da pólvora e da sua carne. Sei que você esteve aqui enquanto eu varava a madrugada dos bares. Sei que o amor é um mito. E a vida, o que é mesmo a vida? Quem são os conselheiros, quem os antagonistas? A morte não existe, definitivamente. Eros viciado, anti-herói, Poncio Pilatos. A vida é um abismo entre dois círculos. Ou seria um semicírculo entre dois abismos? A vida é agônica. Eu sou instável. A mão que balança o mar e mata. Equação indecifrável. Ser tão silencioso nos ruídos que não cessa de fazer. Ser tão distante de tudo. Lonjuras analfabéticas. Incorrigíveis distâncias. A vida é tão vaga que eu insisto. A vida é uma mula teimosa empacada nas barrancas do rio gavião. A vida é uma brincadeira, um jogo trágico e terrível. Tudo que é leve me despertence. O futuro é leve. O futuro não tem realidade. Não há nenhum blues para ti Guimarães. A melancolia é uma abelhinha feroz. Sinto o tempo. Sinto a náusea. Sinto o destino me processando. Acusando-me por aquilo que não fiz. A ausência é um crime imperdoável. A história da arte é a história de uma insensatez sem-fim. A vida é sensível. Penúria. Assombro curvo. Uma muriçoca ruminando alheio sangue. A vida é um blues impossível. Quem vai querer acolher o não que grita nos pesadelos. Quem vai beber o sangue depois de cumprir todas as minúcias do ritual. Nos resta a beleza do que já não existe mais. Aquela casa grande habitada por ratos, morcegos e quintais. O sabor adocicado e prematuro das frutas. O dezembro desenhado na lápide. Aos infernos Freud! Que os céus não desabem sobre nossas cabeças. A vida é uma grande nuvem obstruindo nossa miração da lua cheia. Um buraco. Uma cova de cigarras. Floresta de crianças. Não matei ninguém. Sinto cheiro de carne. Tenho amnésia alcóolica. Alguém viu o gato preto que estou procurando? Está escuro e faz muito frio. Esse é o blues ou a simples atmosfera que eu gostaria de te ofertar, amigo: Guimarães Rosa.

 

Nuno G.

pai de maria y aprendiz de poeta.

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Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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