BARRO E ÁGUA

Pulavam e se empurravam em cima do monte de barro na calçada daquela casa em reforma. Apontavam, vaiavam e riam dos que caiam. De repente, um choro. Um torrão de barro jogado no olho de um brincante. O arremessador cessa a gargalhada ante a preocupação da turma. Alguns minutos se passam após o pirralho ir para casa lavar o rosto; as crianças retornam à algazarra, espalhando a terra vermelha. Do interior da geladeira, algo é retirado. Passos rápidos e curtos cessam próximo ao peitoril da janela no andar superior, ainda sem reboco.

Uma voz gutural anuncia o porvir, depois do recuo calculado do corpo: - Lá vai, garotada!

A bacia de alumínio brilha ao refletir a luz do poste, antes de ser recolhida pelas mãos firmes da silhueta dentro da casa. A meninada tenta se desvencilhar das gotas geladas aos gritos de espanto.

Apenas Gustavo permanece imóvel, ao inclinar a cabeça e olhar para a janela. A água fria atinge suas costas em uma lâpada anestesiante lhe causando arrepios pelo corpo.

A danação pueril acaba...

...naquela noite.

No outro dia, surge a febre no garoto.

Ilton Paiva

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite