Devoração, Diadorim

Chegou-me em ausências, sendo ela a própria ausência em dias posteriores. Em tardes em que éramos brasa e fogo, nascia. Éramos o anoitecer que só chegava com a separação dos corpos suados. Éramos gozo: tínhamos por cama as paredes, o chão frio, os bancos das praças. Ela chegou-me e mostrou-se como que se dá conta de si. Suor, separação. Pra muitos, depois, Diadorim. Pra mim, iluminação.

           

Processo foi conhecer Diadorim, chegar a Diadorim. Distâncias. Corpo mostrado não é corpo real, jamais é. A vida sempre é tranquila antes dos repuxos do conhecer. Mas depois do conhecer, o estar não se basta, é preciso adentrar em líquidos e orifícios, provar do que era Diadorim, do corpo que lhe foi dado. Por dias e dias amei em silêncio Diadorim. Vi crescer cabelos, o trocar das roupas, o tom e timbre da voz. Em algo era diferente amar Diadorim, algo além do palpável, além do dito. Estremeci quando meu corpo foi se encontrar com o corpo de Diadorim. Desbravávamos. E a vida tinha então sombras ao meio-dia. Amá-la, Diadorim, era descobrir rios no deserto do meu eu. Ainda não sabia ser ele no corpo dela. Devorar.

 

Nas primeiras tardes do ano de mudança, Diadorim mostrou-me seu corpo de mulher. Morri nos seios e nos grandes lábios dela, mas Diadorim não era mulher, eu o sabia. Diadorim é. O desejo ardia na carne como dizem que arde o sol no sertão ou como arde o fogo no inferno. Eu me inflamava em Diadorim. Eu era brasa. Desejo, Diadorim.

 

Diadorim-cabelos-grandes jamais me disse que se chamava assim. Não me revelou sua identidade. A conhecia por Devoração, linda mulher com o nome de um ato de entrega, da ação do desejo. Não existia melhor nome de batismo para Diadorim: Devoração. Era perfeito porque ela era chama. Ele era chama dentro dela. Não sei contar quantas alturas de gozo consegui subir com Devoração. Mas no rio do entrepernas dela morava Diadorim. Eu encontrei Diadorim quando era brasa com Devoração. Num momento de pausa que foi só meu, descobri: no reflexo do espelho do banheiro, nas costas largas que se contraíam, no brilho do corpo suado morava Diadorim. Devoração nem percebeu, mas desde então eu sabia seu segredo que ela bem mascarava tentando adequar sua vida aos padrões do corpo que lhe foi dado. Naquela madrugada eu já amava Diadorim. Devoração, Diadorim.

 

No correr dos dias, esqueci Diadorim. Diabo de descoberta! Eu tava era com Devoração, amava Devoração! Atormentava saber duas almas num só corpo. Duas? Nem sei se eram duas... existiria mesmo Devoração? Talvez ela fosse só uma personagem, um espectro de Diadorim. Devoração dividia comigo as dores que a vida fazia aflorar. Chorava ela nos braços meus, mas eram as lágrimas de Diadorim. Ele me aparecia sempre em momentos de elevação, quando o corpo não responde por si. Eu gostava de ser o pão e água dele, gostava de me dar. Sexo nosso era baixo porque as paredes vizinhas diziam: que feio mulher amar mulher. Sempre soubemos que isso não era feio e ponto. Amamos outras mulheres antes e nos amávamos agora. Mas Diadorim me fez descobrir lonjuras, descobrir que amo pessoas, que a vida pode ser além das divisões didáticas que os teóricos da sexualidade fazem. Me mostrou que o amor e o amar é além-físico. Me apaixonei por Devoração, mas amei Diadorim. Devoração, Diadorim.

 

Não temo Diadorim. Ele muitas vezes nem se mostra, mas surge sempre que me mostro em nudez. Espero Diadorim. Meu Diadorim não é o de Guimarães, não é um Diadorim que um escritor poderia criar. Meu Diadorim é, ponto! É um Diadorim às avessas: não é jagunço, não ama um Riobaldo; tem o mesmo corpo que o Diadorim literário escondia, mas não o é. Meu Diadorim nasceu homem no senso, mas mulher no corpo de Devoração. Só espero o dia que me venha a iluminação, tal qual a daquela madrugada de gozo. Nada sairá de sua boca porque já aconteceu a revelação: Devoração expressava tudo o que sofria por tentar ser quando na verdade era um outro. Virá a iluminação, eu sei. Devoração abrirá asas para uma vida outra. Não temo Diadorim. Espero Diadorim.

 

Devoração, Diadorim.

Gleanne Rodrigues, regida pelo fogo. Vive de lutas, resistências, feminismos, Eros e bucetas. Além disso, desenha nas marés altas, pedala em dias de chuva e ama em locais "inadequados".

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite