Larvas de Carmela nas roseiras em flor

 

O revirar do estômago em roncos furibundos era um incômodo constante. De manhã fazia cedinho despertar a família. Nas juras de fome, esganiçava até mesmo ao receber o sustento, e assim no meão da tarde, no descanso ou descarrego, no acamar para a noite de soneira. A mãe atentava: "Carmela, vá ver o doutorzinho", dizia, atropelando a filha porta afora ao estrondo de suas entranhas choronas. O doutor da comunidade pequenina usava do que podia para deparar as brenhas do interior de Carmela. Apoiava o ouvido em seu ventre, como se precisasse, punha as mãos para sentir o agitar do material orgânico ali preso, encostava pequenos aparelhos metálicos na pele da moça, tudo isso com um disfarce informe de placidez na face. Quando sentenciou os males de Carmela, fê-lo devagarinho, arrancando uma a uma as palavras da garganta engasgada. "Isso é mal dos pior", disse, espanando do bigode graúdo as migalhas do recém almoço, "tem que tratar antes que se espalhe".

Ali na comunidade, o que doutor diz é que é de veras. Receitou à moça chá de mistura de ervas muitas vezes por dia, sempre que o estômago demandasse em alto, e completou a visita com juras de seus saberes. "Li esse tratamento num livro novo como o dia, técnica nova pra curar do teu mal, bem científico". A mãe de Carmela achou as ervas no quintal seu e alheios, nos matos ao redor da comunidade guardando ainda as urtigas do Éden. E toda vez que o concerto ventral de Carmela encetava, a salsada de capoeiras era sorvida: de manhã cedinho, no almoço, durante a tarde, noite adentro. Não hoje e amanhã, mas a semana inteira, mês virado e nada. Foi ver o doutor de novo. "É um tratamento mais demorado, as plantas têm seu tempo", defendia. Carmela insistia, então. O composto provindo dos matagais não só olvidava seu fim de efeito contra as algazarras de seu ventre, como instigava dores que resultavam em violentas descargas.

Carmela inchou. O doutorzinho falou de males naturais, desses que brotam da gente mesmo sem ter por que, mas ela cria noutras coisas. Lembrava que, quando pequena, fizera das suas traquinices e, assim, podia estar vivendo seus estipêndios agora. Quando a mãe a largava para brincar no quintal por entre as flores, comia terra. Provava de tudo o que aparecia, de fato, mas o barro seco do terreno era seu ingrediente mais apetecido. Degustou vegetações das raízes aos miolos, minhocas cavoquentas e os mais tímidos tatus-bola. Tragava inteiros, rotava patas e espinhos. Devorou ovos de passarinho que quebrava e deixava ferver no chão quente do sol. Comia roseiras, gostava daquelas de florescer cor-de-rosa, que davam bom aroma à língua depois de um tentame pouco tragável, como limo de cerca. E comia larvas de perder a conta, essas verdes que achava a lhe roubarem o gosto das roseiras.

Mas suas aventuras comilanças do quintal em anos atrás eram secretas. Foi segredo na época, que a mãe não a deixaria mais sair se assim o soubesse, e era segredo agora, que avermelhava nos embaraços de ter provado os gostos do mundo. Entendia que seu mal era o estômago apodrecendo, deixando crescer limos em suas paredes, brincando de rolar os tatus-bola do passado. Fazia os chás de ervas no anseio de matar por afogamento os habitantes de seu bandulho, mas tremia em calafrios ao imaginar a circunstância do avesso. Não demoraria ia perecer, decerto. Ia morrer de espinheiro de roseira, de congestão por pó de raspa de muro, de passarinho nascido de ovo cozido a bicar seus intestinos. De tanto imaginar o ruim, caiu de cama. O medo da morte lhe trouxe febres e lhe fez doer o estômago de arquear, sem, contudo, silenciar seus roncos.

Descia uma noite de calor insuportável quando Carmela deu por encerrados seus aguentares. Anunciou à mãe na hora do jantar: "vou me deitar e não acho que levanto", e tomou o rumo do catre num peregrinar doloroso a qualquer olho. A mãe fez furor, bradou na janela para as vizinhas, correu chamar o doutorzinho que viesse ver o fim de sua paciente. No quarto, sobre lençóis de linho suados de angústias, Carmela rezingava as dores e socava a própria barriga para que parasse com o alvoroço. O doutor chegado, vendo a condição de Carmela, mandou já que buscassem o padre para a extrema-unção. A mãe da moça se desalentava no amparo das vizinhas penosas, Carmela uivava como também o fazia seu estômago e o doutor revirava o chapéu de palinha na mão enquanto maldizia as enfermidades do mundo em voz baixa.

Não demorou, Carmela levantou as saias. As dores que lhe davam a certeza da morte desciam em direção a seu íntimo. Baixou as anáguas, para o pasmo dos presentes, ao antessentir a iminência do que sucederia. Na imodéstia exibiu seus pelos para aquelas que, agora, tinham por certo que seu mal era a possessão demoníaca. "Chamem o padre", clamavam as vizinhas umas às outras, "peguem água benta". Num grito de fazer tremer a cama, Carmela viu sair dentre suas pernas a razão da agonia de dias. As borboletas amarelas, em milhares, saíam e enchiam o quarto, alvoroçando as asas como o fizeram dentro de seu ser, apavorando mãe, vizinhas e doutor. Abriram as janelas do quarto para ver a liberdade dos insetos brotados do interior de Carmela. "As larvas que comi!", ela gritava mais alto que o farfalhar das asas, sem se aperceber que o estômago se aquietara com a solidão.

Na manhã seguinte era primavera no quintal de Carmela. Da janela se via a roseira de flores cor-de-rosa se abrindo ao dia como se sua concubina, deixando-se pousar em cada uma de suas folhas pelas crias de Carmela.

Letícia Copatti Dogenski

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