3 SONETOS A 3 NEGRAS ASSASSINADAS

I. Maria Eduarda

 

“Peritos identificaram que ao menos um dos tiros que atingiram Maria Eduarda, estudante de 13 anos morta dentro da escola em Acari, partiu de um dos dois PMs que foram presos na sexta-feira.” (O Globo, 05/04/2017)

 

a quadra está vazia: ela não veio –

a bola está no chão: não tem torcida –

ali estão as amigas, reunidas,

sem ela – ela não – ela não veio;

 

a escola está em silêncio – pesa o medo:

nos quadros, nem uma palavra escrita –

ninguém nas salas; ninguém na cantina –

sabemos, sim, porque hoje ela não veio –

 

mas ontem ela veio – infelizmente –

brincou, sorriu, falou com as amigas –

sim: ontem ela veio – e veio a morte –

 

hoje ela amanheceu como estatística –

vida de preta é assim, precária, sempre:

pra ficar viva depende da sorte.

 

 

 

II. Vanessa Vitória

 

“Vanessa estava em casa, na Rua Maranhão, quando foi atingida por um tiro na cabeça. Parentes dela afirmam que policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Camarista-Méier invadiram a residência para atirar contra bandidos. A menina havia acabado de chegar da escola.” (Extra, 05/07/17)

 

bala perdida não mata criança:

quem mata criança é quem perde a bala –

o monstro fardado que aponta a arma

e aperta o gatilho – mirando a infância –

 

a bala não mata se está guardada –

calada, no cano – não quer vingança,

não pede sangue: em qualquer circunstância,

fica encerrada em sua ânsia de nada –

 

quem mata criança é o monstro fardado –

mata a criança a serviço do Estado,

cumprindo, fiel, seu pérfido ofício –

 

mata – sem dó – depois dorme tranquilo –

como o assassino que mata sorrindo –

como quem serve ao mais vil genocídio.

 

 

III. Marisa Nóbrega

 

“Policiais da 32ª DP (Taquara) investigam as circunstâncias da morte de Marisa de Carvalho Nóbrega, 48 anos, na manhã desta segunda-feira. Segundo relatos, a mulher teria levado uma coronhada de policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), no sábado, ao tentar impedir que o filho de 17 anos fosse abordado pelos militares. Marisa foi encaminhada ao Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, com traumatismo craniano.” (O Dia, 10/10/2017)

 

cada preta traz no ventre a semente

que desde sempre eles querem ceifar –

da negra raça que em qualquer lugar

teima em sobreviver – maldita gente

 

– não gente – preto é bicho persistente

que não se cansa de multiplicar –

que quanto mais se tenta exterminar

por toda a parte mais se faz presente –

 

malditas essas pretas parideiras

que como fêmeas loucas e irascíveis

protegem suas crias indefesas –

 

malditas essas pretas impossíveis

que têm nas veias sangue de guerreiras

e nunca – nunca – abaixam as cabeças.

 

Henrique Marques Samyn é escritor e ensaísta, idealizador e coordenador de LetrasPretas [letraspretas.wordpress.com] – projeto que visa a divulgar a produção de escritoras negras, com ênfase em obras de autoras brasileiras independentes. Negro, foi criado no bairro da Praça Seca, na zona oeste do Rio de Janeiro. Professor do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é Doutor em Literatura Comparada, tendo concluído pós-doutorado; mestre em Psicologia Social e em Filosofia; e bacharel em Filosofia e em Letras.

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Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite