PORTUGAL É UM NEROLOGISMO E O FOGO O BORDEL DE MESSALINA

 

em memória de Ruth Escobar que se foi esquecida

 

 

Ardemos num incêndio de esperança,

 para que reste de nós uma lembrança,

 um fumo que sobe e não se apaga. (…)

Vivo, porque espero."
- O Pobre Tolo, Teixeira de Pascoaes | 1924

 

 

 

[esta mulher está

dentro de uma ruína com forma labiríntica

todo o alcance do olhar é um manifesto de terra queimada

as pernas vão-lhe enegrecendo até ver a filha

nesse momento desfazem-se]

 

marulha-me a cabeça

uma seita de fantasmas penteia-me os cabelos

e o pior ainda o pior

são estes malditos fios que me levam

a abraçar tudo quanto existe

e emaranham-se na ignorância e na raiva

na perfídia do quotidiano

dai-me uma faca que os corte

aos fantasmas

secai-me as veias destes raios invasores

eu caí neste condomínio de braços descartados

num voo trocado

nas asas de um pássaro de prata

espírito santo do meu azar

livrem-me desta cabeça

deste nerologismo lusitano

desta metáfora política

desta simulação da co-existência

deste totalitarismo da fala

ala ala ala

 

em que china estou deus

esta língua subterrânea

este lugar onde se derramam

os suores repetidos da alvorada

escravidão imprecisa

ciclopes de unhas encardidas

dai-me senhor dos fios um raio de lucidez

que possa derramar pelos dedos escrevendo

a única forma que tenho de oxigenar o plasma

de limpar o chão desta casa corpo onde à força moro

máquinas ponham-me uma roldana no peito

uma locomotiva veloz ao serviço das veias

e que as rasgue ao passar

que fiquem como folhas de aço ao desabrochar

da primavera

e eu me estique à janela do oxidente

e lamba o gelo do que vejo

até gota a gota se destilar no meu estômago

o desvario do homem

MORO NESTE NINHO DE POMBAS

contemporânea dos meus pés

já não alcanço um carvalho

tragam-me um funil de alumínio

um grito esculpido

um braço arrancado ao poder

eu subo ao cavalo

tu guardas a gasolina

que sobrou do domenico

despejo relâmpagos da minha garganta

a mais pequena semente

é ainda a árvore

 

QUERO SER A GUERREIRA QUE VOA PARA UM COMBATE

que sobe à pedra mais alta do olhar dos homens

e os perfura no seu desespero

 

que ventos soprais ao devir ó adormecidos ciprestes negros

se os vossos entes fossem fumo podê-los-íamos reconhecer pelas narinas

[berrou heráclito na minha lembrança]

uma criatura provê-se do que é preciso para não se derramar

enquanto vive com os pés enfiados no deserto

de quantas realidades caimos abaixo

que doença nos separa cada vez mais

EU SOU UMA BOMBA EM ÊXTASE DIVINO

UMA REFUGIADA COM SANGUE DE DIAMANTE

em cima da uma égua sobre o vale do enna

rodeada pela doença da santidade e da amargura enxuta

dos mais belos tremendamente belos potros doidos

ONDE ESTAIS QUANDO SUBIS À VERDADE

ONDE ESTAIS QUANDO O SONHO VOS PENSA

o que agora vomito será por vós engolido

pois nem sempre o que dispo é de seda

um dia perguntarão aos vossos netos

o que fizestes pelo ambiente

pelos mares pelas montanhas

e um ancião dirá que davais as mãos e gritavais GOLO

 

[apercebe-se de que no chão se encontra o corpo carbonizado da filha

as pernas desfazem-se em cinza

um grande silêncio

fita o corpo como se o seu já não estivesse]

 

 

quando atravessamos o deserto são enormes as nossas sombras meu amor

negras formas se prolongam no chão pela incidência da luz

os nossos corpos linhas brancas dotados de esquecimento

brilham ao longe como rosas de areia

ondas longas são os lugares quando pequenos estamos

ondas longas e a água ausente

por isso anseio olhar-te este lago que sou onde tudo se reflecte

e reflectir não é beber meu amor

pois dizer água não retira a sede

é a nossa imagem que se atira à água

não como os silêncios circulares de uma pedra lançada

mas como uma manifestação de ausência

um esplendor da saudade em si

são enormes as nossas sombras no deserto meu amor

negras formas se prolongam no chão

dá-me o dia dá-me a noite

onde a vida se estilhace e reúna a transbordar

dá-me a tábua desse barco

que ébrio acende ao despertar

que eu nasça de ti

e morra a respirar

 

[se o milagre não for muito dispendioso

nasce um dente de leão de cada boca]

 

 

Inédito - Símbolos Antropófagos, 2017

Fátima Vale cosmopolita | actriz | proetisa | activista | vulpes 

publicou as obras azimute (temas originais, 2011), spabilanto (incomunidade, 2012), colostro das vitórias (edições sem nome, 2016). tem colaboração dispersa nas revistas infernus, incomunidade, cultura entre culturas, mallarmagens, zunái, tlön, piolho, ideia, entre outras, estando presente em várias antologias de poesia galegas e portuguesas. está no teatro profissional desde 1995. em 2010, abandona as estruturas de teatro convencional e de descentralização e forma o projecto spabilados-teatro hedonista. movimentou a arte-pãnica, fundada e afundada por alejandro jodorowsky, fernando arrabal, roland topor. colabora com vários grupos de teatro. Em 2013 sobe à montanha e privatiza-se para derrubar muros em torno dos olhos. desce em 2016 com saudade de que belas mãos se lhe estendam. desde 2001 que é mãe, onde trabalha a tempo inteiro.

Fátima Vale por José da Silva Oliveira

Para participar da próxima edição confira nossas REGRAS DE PUBLICAÇÃO.

 

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

Conteúdo protegido pela Lei do Direito Autoral nº 9.610/98. 

Editora Responsável

Lia Leite