A FEIRA DE OEIRAS EM PORTUGAL

Para os poetas de luz luso-brasileira, Beatriz Alcântara e André Luiz Castilho Freire.
 

Uma vez, em férias pelos arredores da Antiga Lisboa,

Fui à feira de Oeiras num parquinho de ares singelos.

Nas barracas, dançavam risonhas prendas pela garoa:

Os queijos da Serra da Estrela e louçarias de Barcelos.

 

Na feira de Oeiras, tudo era um lampejo de dourada festa,

Tudo era encanto de menino: Palhaços com pernas de pau,

Ovos moles de Aveiro, a Mulher Barbada do Circo em sesta

E a leitura de mão com a exótica cigana Oly Shan do Nepal.

 

Na feira de Oeiras, tudo era um lampejo de dourada festa,

Qual meu sonho de miúdo poeta em noite de lua e seresta,

Qual lembranças de menino feito canário de loura floresta

Que voa para longe e não mais regressa pela vida indigesta.

FORTALEZA, A POBRE MENINA RICA

Ao passear pelos vestígios restantes do centro histórico

Da minha singela Fortaleza das cinco décadas passadas,

Surge a cidade postiça a camuflar seu espírito alegórico.

Esta atual cidade envergonha-se das sinfonias passadas:

 

São fachadas comerciais que escondem belos arabescos,

São casarios maquiados que escondem curiosas sacadas

Com cadeiras de balanço e avozinhas de xales pitorescos,

São vias asfaltadas que escondem ruas de pedras roladas

Com meninos de patins a saudar louros dias romanescos.

 

Por memórias meteóricas, desmascaro esta cidade inglória.

Eis a Fortaleza envergonhada da sua gentil alma suburbana,

Eis a pobre cidade dita metropolitana sem dourada história,

Eis a pobre menina rica com perdido olhar de poesia cigana.

O MEU BAIRRO PARQUE ARAXÁ

Para Juracy Mendonça, um Sempre Menino do Parque Araxá

 

Era a Fortaleza pequenina de uns cinquenta anos atrás,

O Parque Araxá era o bairro classe média de bons ares

Com chalés ajardinados de flores boa noite da cor lilás,

Ruas estreitas e incertas salpicadas de verdes pomares

A nutrir risonhos canteiros de rosas e frutas da estação.

Foi-se o meu Parque Araxá da Nossa Senhora das Dores,

Com as procissões de junho e anjos de asas de algodão.

Este bairro foi batizado por sua água cristal sem odores

E ficou assim, sempre encantado no meu infantil sonhar

Entre as lembranças de avozinhas a fiar rendas brancas,

Entre os pregões matinais dos verdureiros a cantarolar,

Entre as benzedeiras a curar bebê com orações francas.

Diogo Fontenelle autor de Reticências (poemas, 1979), Enquanto o Céu não Cair (poemas, 1981), Aquário de Sonho/ Sudário da Infância (poemas, 1982), Baila Balão (Poesia infantil, 1983), O Camelô das Ruas (cartões-postais, 1984), Incensório do Anoitecer (poemas, 1986), Marrocos Menino (Marcadores de livro, 1988), Madrigal de Revisitação à Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção (Papel de carta, 1988), Bumba-meu-Boi (Leques-poemas, 1988), Carta de Amor, Carta de Dor (Papel de carta, 1988), Roteiro do Encanto (poemas, 1992), Lapidário do Lápis (poemas, 1999), O Exercício da Odontologia pelo Ser Feminino: Estresse no Cotidiano (Dissertação de mestrado, 2004), Sorrisos de Jovens nas Periferias da Vida: O que Revelam e Ocultam de suas Experiências e Trajetórias (Tese de doutorado, 2013), Encantares (poemas, 2015) e Miragens (poemas, 2015).

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite