O que será o melhor de mim?

Ao ouvir o Álbum Vou por aí, de Sueldo e Os Grooves, coloquei-me diante da seguinte pergunta: o que eu tenho de melhor para dar ao mundo? Após ultrapassar a barreira dos cinquenta anos e diante de um mundo que oferece pouco àqueles que decidem viver sob o alinhamento da verdade com a sensibilidade, senti-me estranho e com a sensação de que ainda não realizei o melhor de mim.

 

Já disse em outras oportunidades que meus filhos representam minha melhor oferta ao  mundo. Não nego. Reafirmo. Criá-los, vê-los crescer (ela ainda cresce e carece de crescimento) resultou e continua resultando naquilo com que mais sinto satisfação.

 

Contudo, o que me trouxe esse conjunto de músicas não pode se alinhar à maravilhosa tarefa de criar filhos. Ademais, sempre é mais conveniente falar dos filhos alheios. Quando falamos dos nossos, deixando de lado a arrogância costumeira aos pais e mães que querem que os filhos os espelhem, sempre temos algum tipo de peso e/ ou desconforto.

 

A quarta música, intitulada O todo de mim, de autoria de Sueldo e Edinho Vilas Boas, pais como eu, trouxe ao meu espírito aquela pergunta: o que é o todo de mim? Deixando os filhos agora um pouco de lado, pois para eles o todo ainda será pouco, deparei-me com a circunstância de, com mais de meio século de vida, indagar onde está o todo de mim.

 

Creio que Sueldo realizou nesse Álbum o que a quarta música reflete.

 

Bem, preciso explicar melhor.

 

Conheci Sueldo há trinta anos. De lá para cá tive a privilegiada oportunidade de ouvir muitas de suas canções. Algumas jamais gravadas ou expostas ao público. Ele gravou em cassete, vinil, CD e em outros suportes que a velocidade deste mundo decide como excluir/incluir. Posso depor que sempre se cercou de muitos bons músicos. Seu caráter gregário lhe permitiu estar ao lado de alguns dos melhores instrumentistas produzidos pelo povo potiguar e adjacências. Mas, como eu, após os cinquenta, foi que encontrou o melhor de si.

 

Comecei falando das contradições de ser pai/mãe para afirmar ser o álbum Vou por aí o melhor que Sueldo entregou ao mundo em suas cinco décadas de vida, com quase três dedicadas à Deusa Música. Mas não vou tentar explicar os motivos de o artista, agora, encontrar-se profundamente com a sua melhor possibilidade musical. Os motivos dessa decisão são muitos e de diversas ordens, porém basta dizer que não escrevo na condição de crítico que analisa um conjunto de composições que ouve e sim como uma pessoa que se emocionou em duas frentes distintas mas complementares. Primeiramente pela música em si. Ouvir, por exemplo, A fala do coração, Faça valer e Aláfia, entre outras, foi suficiente para levitar, sair do chão, sentir felicidade por existir. Sentir a sensação de que alguém no mundo fala como sente o seu próprio sentimento. Não obstante, em outros momentos, a agudeza das composições fez-me sentir constrangimento por partilhar de um mundo tão cheio de gente hipócrita que só olha o próprio umbigo, como é delatado em canções a exemplo de Gangue da central e Zona Norte, Zona Sul, esta última composta por Ricardo Baya.

 

Há uma final e peculiar satisfação em ouvir um produto artístico tão bem acabado e com tanta profundidade como o de Sueldo. O privilégio de partilhar de sua amizade, da companhia de sua família, de dialogar com a oscilante tarefa da formação dos filhos, põe-me diante de um sentimento raro e dificílimo. Quero dizer que se Sueldo não fosse o artista que é, minha amizade não seria menor. No entanto, quero declarar que é muito bom ouvir, sentir, me emocionar com o produto de meu amigo, pois sei como ele perseguiu esse resultado. Tentou. Tentou. Não desistiu.

 

Portanto, sou e estou duplamente feliz. Primeiro como ouvinte comum que tem acesso a um grande, profundo e emocionante produto artístico. Por fim, não posso negar e nem quero, que me enche de regozijo saber que esse Todo é fruto do sentimento, dos nãos, dos sins, da vivência, das angústias e das alegrias vividas por Sueldo. Amigo, vá, enfrente, o Todo está aqui, você conseguiu. Mas, o melhor sempre estará por vir. Estarei aguardando!

 

 

 

Deribaldo Santos possui graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA (2001), especialização em Gestão Escolar pela Universidade Estadual do Ceará - UECE (2003), mestrado em Políticas Públicas e Sociedade pela UECE (2005), e em 2009 concluiu o doutorado em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atualmente é professor assistente da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (FECLESC-UECE) e pesquisador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário (IMO). Lidera o Grupo de Pesquisa Trabalho, Educação, Estética e Sociedade (GPTREES) e coordena, o Laboratório de Análise sobre Políticas Sociais do Sertão Central (Lapps).

Sueldo 

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite