DÉRCIO BRAÚNA
POEMA

fotografia: Ed Silva Quenoa

A TRIBO DE QUE DESCENDO

Às gentes de um lugar, Córrego de Areia de seu nome
(essa gente do mesmo barro de que venho)
 

Por este vasto mundo surdo
tenho dito muitas palavras.
 
Nenhuma delas vencerá
a mó do esquecimento
sobre o grão do tempo.
 
Nenhuma delas fará lenda
ao povo sem insígnia
              (“nem distinto nem bento
              sem nome nem renome
              sem papel nem brasão”*)
de que descendo –
            
essa velha tribo
de obreiros que
“com o ferro das espadas
forjaram o arado”*
e honraram a memória
humanizadora do barro.
 
 
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[*] MAHMUD DARWICH, in A terra nos é estreita e outros poemas
(Trad. Paulo Daniel Farah. 3 ed. São Paulo: Bibliaspa, 2012, p. 58 e 91)

 

 

 


O QUE SE DEIXA
  
I.
Teremos aprendido com os deuses
a deixar para trás
(somos nós, suas crias, prova disto).
 
Mas ao contrário dos deuses,
nossa casa mortal
(ossatura e memória)
não sabe deixar para trás
sem amar o que deixa.
 
II.
Tenho em crer que os deuses,
do alto de seu existir eterno,
são mais tristes que as crias
(sós) que deixaram para trás.

 


DAR LÍNGUA AO OBSERVADOR GERAL
  
I.
Gosto do pensamento de um homem
que um dia, em alínea de poesia,
disse da vida sua síntese:
“durante anos alimentamo-nos de tudo, por fora,
e depois alguém, o Observador Geral
[deus é um modo de lhe O dizer]
devora-nos, subitamente, por dentro.”*
 
Gosto do pensamento desse homem,
que parece e exato é.
 
Gosto porque,
na geometria perfeita dessa exatidão,
os meninos-poetas
                 (alimentando-se de tudo,
                  nutrindo a vida que têm a viver),
dão língua ao Observador Geral.
 
II.
E quem há de saber
se o Observador Geral não habita
justo na língua má educada dos meninos?
 

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[*] GONÇALO M. TAVARES, in Investigações. Novalis
(Difel: Algés (Portugal), 2002, p. 113)

 

A FABRICAÇÃO SILENCIOSA DOS AFETOS
 
 
Existir não é da ordem dos cálculos.
O tempo que testemunha uma vida
(perdoem-me os doutos senhores biologistas)
é feitio da poesia.
 
Que é, senão poesia,
essa imensa memória da pele,
das mãos gastadas
na fabricação silenciosa dos afetos?
 


 

DICIONÁRIO POÉTICOSENTINTE DE INFINIÇÕES
[fragmentos]
  
Tempo:
1. a tinta de deus escrever o homem;
2. mas o tempo não há – sua carne é ter sido (assim como deus: escritura apagada à nascença mesma do gesto da mão).
 
Uma terra:
1. a paisagem do nome seu;
2. escritura de passo ido em caligrafia de poeira ficada (olho marejado por dentro em águas de geografar memórias).
 
Viver:
1. carpintaria de saber difícil;
2. a matéria de que se faz não se doa, antes nos confronta (ofício avesso e sem mestre).

DÉRCIO BRAÚNA [1979] é cearense, de Limoeiro do Norte. Historiador (mestre e doutorando em história social / UFC), com estudos sobre as relações entre história e literatura.  É autor das obras poéticas: O pensador do jardim dos ossos [2005]; A selvagem língua do coração das coisas [2006]; Metal sem húmus [2008]; Aridez lavrada pela carne disto [2015]; Como cavalos fatigados abrindo um mar [2017]; Escrevivências: livro de vidas imaginografadas [2017, no prelo, em parceria com o fotógrafo Joel Neto]; da reunião de contos Como um cão que sonha a noite só [2010]; e ainda dos estudos Uma nação entre dois mundos [2008]; Nyumba-Kaya: Mia Couto e a delicada escrevência da nação moçambicana [2014]; e A assombração da história: história, literatura e pensamento pós-colonial [2015]. Atualmente, desenvolve pesquisa acerca do pensamento sobre a história na obra do escritor português (Prêmio Nobel da Literatura 1998) José Saramago.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite