IMPRUDENTEMENTE

 

Fui sempre esse imprudente:

que deixa o rastro de seu desejo

na memória de outras mãos.

 

Imprudentemente poético,

não aprendi nunca a rasgar

o mapa dos afetos que fabrico.

 

*

 

 

PÁSSARO SÓ

 

ando pelo mundo:

dou geografia a meus pés,

fio paisagens de ilusório

existir no caderno

de minhas pequenas

memórias;

 

ando pelo mundo:

dou a meu corpo outros

que me deixam

o ilusório risco

de desejar mais que

o incêndio breve da pele;

 

ando pelo mundo:

pássaro só sangrante

que nunca pôde

responder ao muro

que lhe interroga:

“você é a saudade de quem?”

 

*

 

 

TEU NOME

 

Talvez a manhã não seja

um pedaço do que dura

entre o desenho primeiro

da luz e o último fogo

que arde o dorso do sol

quando a desmorrer.

 

Talvez a manhã seja

essa escritura de som

que teu nome deixa

em minha boca quando

te pronuncio na língua

de minha espera.

 

Talvez a manhã seja

esse carnado corpo meu

que pede a ofensa de teu

mais pequeno gesto

em oferta do que nunca

será amor.

 

*

 

 

EU, DAISY MASON

Para Álvaro de Campos

 

Olha, Campos, escrevo-te a dar notícias de

York.Vim a este lugar em que talvez tenha

nascido (mas quando é nascer?, onde a senha

que abre o viver da pessoa a tudo que há de?).

 

Andei por ruas, surpreendi olhos na escuridão do cais.

Foi lá que encontrei aquele rapazito das tuas horas

(felizes, tu dizes). Disse-lhe do amor (julgado, embora)

que fora o teu nessa distância que agora é nunca mais.

 

E nesse agora (um já nunca mais), escrevo-te, amigo,

a verdade que nunca hás de ler: que aquele rapazito

das tuas horas (felizes, tu dizes) também lhe teria dito

 

de seu amor, das horas felizes que (embora não o saibas)

tu destes àquele corpo de trato e escambo em olhos de

marear perdição na carne – isso que arde e sempre há de).

 

*

 

 

 

 

Dércio Braúna [1979] é cearense, de Limoeiro do Norte. Historiador (mestre e doutorando em história social / UFC), com estudos sobre as relações entre história e literatura.  É autor das obras poéticas: O pensador do jardim dos ossos [2005]; A selvagem língua do coração das coisas [2006]; Metal sem húmus [2008]; Aridez lavrada pela carne disto [2015]; Como cavalos fatigados abrindo um mar [2017]; Escrevivências: livro de vidas imaginografadas [2017, no prelo, em parceria com o fotógrafo Joel Neto]; da reunião de contos Como um cão que sonha a noite só [2010]; e ainda dos estudos Uma nação entre dois mundos [2008]; Nyumba-Kaya: Mia Couto e a delicada escrevência da nação moçambicana [2014]; e A assombração da história: história, literatura e pensamento pós-colonial [2015]. Atualmente, desenvolve pesquisa acerca do pensamento sobre a história na obra do escritor português (Prêmio Nobel da Literatura 1998) José Saramago.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite