CLOTILDE ZINGALI 
FRAGMENTOS

Clotilde Zingali (1966) nasceu em São Paulo, capital, no dia 19 de janeiro. Começou a escrever na adolescência e por volta dos 26 anos passou a escrever com mais intensidade. Formada em Produção Editorial, apaixonou-se pela montagem e feitio dos livros antes da leitura, que veio com maior fluxo quando o próprio processo de escrita passou a demandar outros horizontes. Clotilde se mudou para Santa Catarina em 1997 e sua trajetória nasce com o Prêmio Joinville de Expressão Literária, em 2005, quando alcança o primeiro lugar com o poema “Anamnese”. Na edição de 2006, é novamente contemplada com menção honrosa pelo conto “Solilóquios para um Dia Especial e A Despeito de Meteorologias”. E em 2008 conquista o primeiro lugar com a poesia “Sobre Reformas” e uma menção honrosa pela crônica “Cinco Baladas para Maria”. Depois do percurso no Prêmio Joinville de Expressão Literária, passa a integrar o grupo de poetas joinvilenses Zaragata e publica os livros: Bricolages para Geladeira (2006), Oco Hálito (2007) e 40 Possíveis Maneiras de se Descascar uma Mulher (2008), todos os três premiados e produzidos através do apoio do Edital de Apoio às Artes de Joinville. Atualmente trabalha na escrita de seu próximo livro e mantém seu blog com atualizações semanais. 


GARRAFADA PARA DESAJUSTES HORMONAIS

 

Penso sobre princípios de aerodinâmica e combustão. Penso também em pequenas magias e coisas transcendentais: como garrafadas para curar males e mazelas. Uma garrafada de Aloe Vera e formol, por exemplo. Será que adianta? Resolve meus problemas?” Conto para uma amiga e gargalhamos juntas. Ela me diz para esquecer as garrafadas. Diz que para quase todas as coisas, precisa-se apenas de dois dias. Não tem quaisquaisquais;não tem mimimi; seja para iniciar um regime, cair na esbórnia, aceitar ou não uma proposta, mudar a vida em tudo ou em nada! Uma cesta de métodos mais dois dias de concentração e tudo se resolve. Ela diz que desse jeito, não vai ter aloe vera que faça páreo! Quanto ao formol, nem pensar, não é? Me pergunta se quero, por acaso, estacionar nesse estado de coisas ou qualquer outro? E já sai dizendo que o movimento rejuvenesce!  Gosto da minha amiga! Ela olha para os fios soltos que afinal, sempre vão existir e me oferece palavras rede onde experimento um existir borboleta... um existir pétala, que dança com o vento. Seja como for, se o tempo não pode ser revertido, a mudança cabe no oco da mão e mora ali, bem debaixo do hálito quente. Uma harmonia delicada entre a força que impulsiona as asas e um viver que é tão fugaz. Um estado de fenômeno que eu inspiro e sigo. 

 

 

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA

sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e talvez sem explicação. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono,  depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite