LADY DI E OS MORTOS DO NEPAL

Quando Lady Di morreu
eu estava num ashram na Califórnia
e soube pela minha sobrinha
do acidente fatídico em Paris.
Sem saber o que fazer
fui à sala de leitura
e perguntei para o monge mais próximo
se ele sabia que Lady Di tinha morrido.
Ele me disse: - Morrem pessoas todos os dias.
Eu fiquei tão chocado que não consegui dizer mais nada.
Ontem
vi no noticiário milhares de pessoas mortas no Nepal
e não senti nada.
Hoje
soube que um conhecido
morreu depois de uma longa doença.
Fiquei tão chocado
que não consigo parar de pensar
nos mortos do Nepal.

LAPIDAGEM

encontrei Netuno
em uma rua de Amsterdã
ele me disse:
“Não fuja de si”
e fugiu

BERGMAN

Estive na Suécia
e lembrei-me de sofrer

PLÁGIO

se eu fosse são
seria van gogh

se tivesse cabeça
seria maria antonieta

se falasse a verdade
seria pinóquio

e nenhum deles seria eu

ARQUEOLOGIA

Prestar atenção no corpo
Em suas ciladas e pálpebras
Prescindir dele

Prestar atenção no corpo
Não compactuar
Com sua jornada ininterrupta
Rumo ao centro da Terra

Prestar atenção no corpo
Mantê-lo limpo
Qual visita zelosa
Que pensa em retornar à vossa casa

Prestar atenção no corpo
Amá-lo como a um gato
Que se deixa escapar
Quando a noite vem

Prestar atenção atenção no corpo
Para dele se esquecer
Na gravidade que um dia
Vai nos separar dele

 

 

Cesar Garcia Lima é poeta, professor de literatura e jornalista. Publicou “Águas desnecessárias” (Nankin; 1997) e “Este livro não é um objeto” (edição do autor; 2006) e dirigiu os documentários “Soldados da Borracha” (2010) e “Onde minh'alma quer estar” (2015). Nasceu no Acre e vive no Rio de Janeiro.

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Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite