PANFLETO

 

PARTE UM: 2016

 

                                                    
Você que feriu um homem comum

não se sinta seguro. O poeta lembra.

Você pode matá-lo – outro nascerá.

Feitos e palavras são registrados. (Czesław Miłosz)

 

 

EVOCAÇÃO

 

Posso perder a noção da sobriedade,

da fidelidade, a da boa educação,

da estética e a do ridículo

 

qualquer perda dessas

me causará dor e prejuízo

mas eu posso perdê-las

 

o que eu não posso é perder o desfiar da história

Se eu perder a noção da história

eu terei sido nada,

nada terão sido todos os meus gestos,

todos os meus dias, ações e pensamentos.

 

ARTIGO PRIMEIRO: A CONVERSA FIADA

 

Todo o poder emana do dinheiro

          e em seu nome será exercido.

Todo o poder emana da violência

           e em seu nome será exercido.

Todo o poder emana da mídia

          e em seu nome será exercido.

Todo o poder emana das fardas

          e em seu nome será exercido.

Todo o poder emana dos tribunais

          e em seu nome será exercido.

Todo o poder só emana desses sujeitos

          e somente em seus nomes será exercido.

Do povo é que não

          e também é que nunca.

AI

 

E uivou Ginsberg ao mundo

em pleno macartismo

louco de dor e de sombras

“América, tu deixarás que tua vida emocional

          seja conduzida pelo time magazine?”

 

se ele disse o nome da serpente naquele tempo cinza

eu direi também

60 anos depois em outras trevas

 

Ó globo, zumbi do século passado

— por quanto tempo mais ainda

irás deformar o pensamento,

a inteligência, a decência de um povo inteiro,

Ó espectro, cadáver insepulto

— por quanto tempo ainda mais

tu nos privarás da civilização

 

 

AI DE NOVO                                               

 

Brasil

Há tanto tempo nossas mentes serão bagaços de laranjas

moídas pelo espremedor de teus três poderes,

Ai que agonia sem jeito

que pena de prisão perpétua —

Brasil, os brancos de ‘64

e de sessenta e quatro anos

estão forçando a porta de novo

agora fardados de toga

e jogando o gás do medo nas nossas ventas

Eles sentenciam pela pobreza, pela cor da pele,

nasceram condenados a condenar

e ainda deliram que são justos

só porque cumprem seus ridículos rituais —

São só policiais com um martelo na mão

construindo uma sociedade violenta

          e miserável de espírito que nem o deles,

Mas são tão orgulhosos

E eu tenho é pena dos ossos deles,

da alma deles

vagando sem paz pelas páginas da história.

 

 

PRISÃO PERPÉTUA

Muito longe da civilização

          há um grande terreno

onde eu choro de ter nascido.

Neste latifúndio há uma cláusula pétrea

(os que se fizeram donos da capitania hereditária

 gostam dessas expressões ridículas):

 

“Propriedade privada, É proibido

          fundar aqui um país, uma nação,

um povo —

Afaste-se,

Cuidado com os cães da raça mbl”

 

Os cães são muito antigos.

 

 

UM SIMBOLISMO PARA A INSENSATEZ

 

Vem a primeira sombra.

Vem a segunda sombra,

e ninguém lava os olhos com luz.

Vêm a quarta e a terceira

e depois a penumbra inteira . . .

E quando os olhos piscando

reclamam um pouco de luz,

então já é tarde demais,

A noite grossa se faz

trazendo toda a cegueira.

 

 

BREVE RECADO AOS MANIFESTANTES DE 2013

 

Vocês aí, de paletó, de cara branca

 e blusas de marca

vocês são uma coisa,

o povo é outra.

Vocês com suas marchas pela família

suas cruzadas em favor de nada

suas caravanas para lugar nenhum —

vocês vão sempre em direção contrária

          aonde vai o povo.

 

 

PRAÇA PORTUGAL

 

Eu não gosto daqui

esse lugar tão lindo e tão desagradável

Desculpem

Não gosto dessas pessoas

          tão finas, tão indelicadas

Desculpem

Não gosto desse tempo igual ao século dezoito

Não me desculpem mais

não gosto de escravocratas

Não gosto dessas caras brancas

          como se fossem pessoas

com tanto deus em si, tanto deus

          e o gosto ínsito pelo chicote.

 

LÓGICA PURA

 

Outro dia disseram

ninguém governa com apenas

8% de apoio popular

Aí derrubaram aquele governo

que só tinha oito por cento

e impuseram outro com o enorme apoio

do 1% de intocávei$

Aliás os intocávei$ daqui

são exatamente o contrário da Índia

 

Mas todos são desiguais perante a lei

segundo afirmam peremptoriamente

os escoteiros, lobinhos e lobinhas

do supremo tribunal de injustiça

do patriótico parlamento da vergonha

da iluminada classe média

          sempre alerta.

 

NUNCA

 

Nunca seguirei os ritos obrigatórios

          da minha classe social.

Não irei às compras

          na Livraria Cultural nem

em outro Shopping qualquer.

Não irei a Orlando nem a Praga

Não embarcarei no Transatlântico XXX

rumo às únicas praias paradisíacas

          que há por toda a parte

Nem serei visto no saguão do Aeroporto de Guarulhos

falando nervosamente ao celular,

 com grandes ares de importância e preocupação.

Me prometo nunca bradar discursos de ética

enquanto estaciono na calçada dos pedestres a minha 4 X 4,

Juro solenemente com a mão espalmada

sobre a Cruz de shalon, e sobre um Tefilin, e sobre a Caaba,

que nunca terei 4 X 4, 4 X 3, 4 X 2 na minha vida —

          Oh perdoai minha blasfêmia, fiéis adoradores de Nissan,

profetas da Hilux que há de vir,

colecionadores de miniaturas de automóveis,

donos de boxers, de dobermans, de angorás!

Não juntarei pontos no meu cartão de crédito

Não terei cartão de crédito

Não lerei cartas de vinho

Ninguém me encontrará nas filas para assistir aos vencedores do Oscar.

Nunca entrarei na justiça contra meus vizinhos

Não comerei a loura mais cobiçada da minha classe social,

arre, quase todas têm que ser louras!

Execrai-me ó moças das compras, chamai-me de homenzinho

com vossos dourados e vossas dez bolsas em vossas dez mãos,                    

Execrai-me, pois eu nunca estarei na moda.

 

 

DISCURSO NA TRIBUNA

 

Olha aqui nobre deputado

Se você gosta tanto de jesus cristo assim

Não consta em canto nenhum

que ele tenha sido vereador,

líder de bancada,

Muito menos conservador

          que nem o senhor

Ao contrário

se jesus cristo militasse na política hoje em dia

Estaria na tribuna com uma túnica vermelha

puto da vida

          lhe chamando de tudo no mundo

menos de nobre deputado,

          pastor ezequiel.

 

 

AGORA

 

Acabou-se o tempo das frases

acabou-se o tempo das frases

e das rosas. O tempo da afago

acabou-se, Acabaram-se os acenos

da compreensão

 

E agora é o tempo das armas

das armas e das amarras

a tempestade dos olhos

a tempestade dos ódios

as palavras explodidas

as mãos crispadas.

 

COM AS MESMAS PEDRAS NA MÃO

 

Aquelas gentes que acreditavam em deus

e em ódio

          ao mesmo tempo

Estas que acreditam em deus

          e em matar o próximo

ao mesmo tempo

Essas gentes do antigo testamento

Tão antigas,

estão de novo com as mesmas teclas na mão.

 

 

OS FASCISTAS

 

Deixa os fascistas falarem.

Eles falam, falham, falam.

Deixa os fascistas falharem.

Deixa os fascistas falirem

No seu discurso de ritler

De rifle, de rottweiler.

Faz chiste,

deixa falarem sozinhos.

 

 

HISTÓRIA

 

2016, Derrubaram mais um presidente,

Os jornais dão manchetes dissimuladas

 

Aquela velha rede de tevê

declarou-se onipotente,

ela e as bolsas mundo afora

 

A federação das indústrias

estendeu faixas em suas portarias,

ela e a oab

 

O judiciário obteve 27% de aumento

e achou muito bom o que estava acontecendo,

ele e a exxon incorporation

 

O parlamento, bem o parlamento

não sabe falar direito,

Só entende mais ou menos de bíblia, de bala,

de muito dinheiro e de boi

 

Enquanto isso

eu como as bananas da república

E vejo lá na frente

o mesmo homem

raspando a mesma terra

com a mesma enxada.

 

 

DOMINGO NEGRO

 

Dia de eleição,

As pessoas saem de casa

com a identidade na mão

(com a identidade na mão!)

Entram numa fila

E elegem o seu verdugo,

o seu algoz, o seu carrasco

          e o seu saião —

Depois é voltar pra casa

e aguardar a execução.

 

 

POEMA PARA A CAPATAZIA TOGADA

 

Ratos e porcos se cobrem

Ratos e porcos e pulgas se cobrem com a mesma toga

Porcos e homens se cobrem com a mesma toga

As pulgas estão roendo a nossa pele nua,

nossa liberdade.

Pulgas e togas estão fazendo isto.

 

TÃO POUCO, QUASE NADA

 

Eu levei muito, muito tempo

para finalmente não entender o Brasil

Nem entender o ódio brasileiro

que se tem um do outro

Quando o outro é ele mesmo,

          apenas um pouco mais pobre,

          mais preto apenas um pouco.

 

 

ROUPA NENHUMA EM 2016

 

                    também já fui brasileiro (Drummond)

 

Não adianta lavar

Toda bandeira

é um pano sujo de vento e de poeira,

Não cobre minhas vergonhas

          o lábaro que ostentas estrelado

 

O lábaro que ostentas estrelado

agora está

sinalizando apenas

          a nova temporada

da nossa humilhação.

PANELAS E SAPATOS

 

Em 2013

eles batiam panelas tramontina contra nós

em 2014, em 2015

quando ainda tinha feijão em nossa marmita

E um juiz ganhava 200 mil

do imposto que a gente pagava do feijão que comia

e que não come mais

porque roubaram nosso emprego,

o juiz o deputado as louras com camisa da cebeéfe

batiam panelas contra nós

E deram um golpe em 2016, outro em 2017,

darão outros,uns atrás dos outros,

E diziam que eram democratas

Democrata é uma marca de sapato muito chique

e por coincidência um partido de direita —

Que covardia,

com pé calçado se chuta qualquer coisa.

 

 

SOBRE A TORTURA

 

                              Feitos e palavras são registrados (C. M.)

 

Quando condenaram o cara

          eu disse esse é só mais um silva

que vai em cana

mas não era só mais um silva

          que outro silva levava em cana

como em todas as outras vezes

Boliam livres no ar mil folhas do que foi plantado

E havia frutos, sim havia frutos e dentro deles, sementes;

Quando prenderam o cara

a minha vizinha chorou

(e isso era uma semente)

E eu fiquei pensando o que o tempo irá fazer

com esses eunucos do capital,

filhos da puta que nasceram

          só para justiçá-lo por vingança de classe,

só para fazer isso

e gastar muito mais livres o trabalho dos pobres

          e as águas do mundo,

Fiquei pensando com muita raiva neles

(e isso eram as sementes) . . .

Naquela noite eu não dormi

nas seguintes dormi muito mal —

Os torturados nunca dormem bem

mas também nunca esquecem

os torturados nunca esquecem:

          Deixam que germinem os atos

pelos séculos seguintes.

 

 

DO MEU DESTERRO

 

Lá vem aquele menino limpador de pára-brisa

aquele menino preto

menino proibido de ser —

Muito cedo vai parar atrás das grades

De qualquer maneira

muito cedo não chegará a ser homem.

 

Não quero mais isto

Não quero mais falar de fome

Não quero mais

          este país sempre adiado

este país

onde o próprio nativo vive em eterno exílio,

Quero outro,

Quero o que acolha

          os filhos da sua terra.

 

TRISTES TRÓPICOS

 

A vontade de chorar

que me dá ser brasileiro

          é esta

Que nasceu meu trisavô

           entre açoites do feitor

e vou morrer em um cortiço

           entre as balas da polícia —

É esta:

Em outubro me chamarem de eleitor

que em agosto um novo golpe será dado

E é esta:

Esperar por um país que nunca há —

A vontade de chorar

É esperar e esperar uma solidão e meia

esperar até sentir pena de mim,

até virar um trisavô

          igual àquele que já esquecemos.

 

 

31/12

 

Em 2018 estaremos mais tristes.

Feliz ano novo, sérgios moros.

Estaremos mais tristes e mais pobres.

Feliz ano novo, michel temer.

Estaremos também mais intolerantes.

Boas festas, joaquins barbosas,

bolsonaros, carmens lúcias, 

nomes que não significarão nada.

Mais tristes, mais pobres e mais ignorantes.

E mais safados, mais cínicos, mais agressivos,

mais arcaicos, mais canalhas.

Feliz ano novo, geraldos alkmins, marinhos, neves

Feliz ano novo, ó fornecedores

          da nossa tragédia,

bando de relógios parados atrasadores do tempo.

 

 

ELES DEPOIS DE 31/08/2016

 

          de ti, madeireiro,

até as árvores tiveram vergonha.

 

Eu não digo mais: “Não passarão” —

porque eles vêm mesmo,

São muito chatos!

Mas não demoram, graças a deus,

          não demoram: —

Eles sempre passam.

PARTE DOIS: MEGRUEL

 

HINO DA NOSSA HUMILHAÇÃO

 

Do fim ao começo de século

estamos no fundo do poço

 

De nada valeu a fé

de nada valeu o esforço

 

Diante da fruta passamos

da fome direto ao caroço

 

Cedemos primeiro o jantar

e então nos tomaram o almoço

 

Deixamos montarem uma vez

agora não temos mais dorso

 

E de tanto abaixar a cabeça

perdemos também o pescoço.

 

 

O FUTURO DO BRASIL

 

A favela é uma infantaria

maltrapilha mal armada

Pra enfrentar a artilharia

da polícia militar

o exército brasileiro

o financeiro o traficante

o exército americano

A favela é uma infantaria

de infantes, de crianças,

cheia de meninos mortos.

 

A COORDENADA

 

Miséria. À direita

A noroeste A bombordo

A 30 graus de latitude

No centro De ré À frente

No pára-brisa A teu lado

Por dentro No prato

E à porta No bolso

No osso De fato

À solta No censo

Por aí Amanhã No templo

No barro Na alma

No pronto-socorro

Já-já Aqui perto

No livro No dente

No hino e no tempo

Na voz No asfalto

No medo e No ar

Na loja No banco

Nas grades Na praça

Sujeira Miséria

Miséria

E mais nada.

 

 

NEGÓCIO

 

Quando tu cercares

toda a água do mundo

Megruel

Tu me venderás

um copo d’água

E calcularás

pela mais exata equação

que o teu preço é justo

e a minha sede, não.

 

 

APARELHO

 

Polícia não dá aula

Polícia não cultiva

Polícia não cativa

Deprime.

Polícia não fabrica

Polícia não alisa

Polícia não avisa

Deprime.

Polícia não costura

Polícia não faz roupa

Polícia não dá sopa

Deprime.

Polícia não cozinha

Polícia não diverte

Polícia não adverte

Deprime.

Polícia não constrói

Polícia não faz casa

Polícia não faz caso

Deprime.

Polícia não transporta

Polícia não conduz

Polícia não dá luz

Deprime.

Polícia não traz cura

Polícia é muito antiga

Por isso minha amiga

Deprime.

A CULPA TAMBÉM É MINHA

 

Pindorama é um país que se acaba sempre antes de existir.

Toda vez que começa a existir, se acaba.

Não dura mais do que o começo.

E aí se acaba. O povo tá acostumado:

Nem liga mais.

Aliás: nem povo de verdade tem.

Aliás: se acaba, não: acabam.

Você aí, sabe exatamente que é você

que acaba pindorama antes de existir.

 

 

APRESENTAÇÃO

 

Eis Megruel e sua história

seu fausto e sua morte bem-vinda

 

Eis Megruel e suas idéias

de cerca, vantagem e domínio

 

Eis Megruel e suas tropas

soldados amestrados no ódio

 

Eis Megruel e sua toga

para proteger seus iguais

 

Eis Megruel e seu ofício

de vender voto e extermínio

 

Eis Megruel e sua história

seu fausto e sua morte bem-vinda.

 

 

FORA MEGRUEL

 

Como é que te enlameias tanto

e te enxovalhas pela história a fora

Que desejo mais estranho e tonto

é esse de envergonhar-te a ti próprio

ó presidente? Te cuspirão os dentes

os estudantes

mais tarde sobre a tua foto.

 

 

ENTREVISTA COM A INDIFERENÇA

 

Falo com o olho posto

sobre Megruel

“Apodreceste a esperança

num silo de metal

para teu uso exclusivo.

Mildestruiste a esperança

como o pára-brisa beija a pedra.

Impuseste à gente o oco do mundo

e arrancaste a língua da boca

que perguntava onde era Roma.

Tu lhe extraíste a esperança

como se arranca um dente

quando o molar é a confiança

que se tem diante

da fruta dura e doce.

Tu roubaste a gravidade

porque excluíste o chão

para teus tapetes”.

Megruel ergueu

seu anelar de grão-vizir

e respondeu

“Eis a postura de

como serão erguidos

os monumentos à minha memória”.

 

PRIMEIRO MOVIMENTO

 

Os trilhos férreos levam o mar além

do porto longe até onde o trem

adentra a treva às terras de ninguém

como em outra era, o comboio negreiro.

 

Tão vasta a terra e verdejante a vista

inútil e bela paisagem perdida

Pergunte ao cego de que serve uma tela

se se instalam cercas no cartão postal.

 

Donos de feudos de virarem mapas

Donos dos brilhos de qualquer cidade

Donos de deus e do império, ó casta,

tão pouco sois e é tanta a iniquidade.

 

É a vontade vossa o que comanda o mundo

com vossos discursos de coisa nenhuma,

clubes de jogos e de dar esmolas

é vossa ideologia de armadilha e dólar.

 

Sois os banqueiros de nossas doenças

os industriais de nossa ignorância

a fazer comércio de alheios músculos

e é de alheio músculos vossa ostentação.

 

Vem de vossos pares o eleito corrupto

É vosso também o corrompido voto

para que seja vosso todo o subsídio

a traficância toda, todo o permissivo.

 

Vossa cara é feita de um feliz esgar

Vossa mão é arma, vosso braço assalto

Vossa voz é feita de arame farpado

Vossa alma cheira a conta bancária.

 

Não vos conteis e quereis sempre mais

além do que quiseram antigos reis

Quereis que o excesso se dilate mais

para que caiba em vosso ventre Deus.

 

É de diamante o botão das blusas

É de ouro e prata vosso lixo puro

do suor do eito vem vossa abastança

É de carne humana vossa refeição.

 

De muito longe vossa rapinagem

pois em vossos genes há três portugais

cruel dinastia que trazei no sangue

desde os pais de avós de vossos pais ou mais.

 

Vosso reinado que quereis eterno

nas mãos indignas de vossos vassalos

desmanchou-se como ao sol o inverno

pelos punhos de outras mãos, cerradas.

 

Pois que se quebrem vossos diamantes

terminem em guerra vossos carnavais

Vede no ouro de vossos relógios

faltam dois minutos para nunca mais.

 

INTERLÚDIO

 

Polícia não adianta mais.

Não adianta cadeia

Lei, paciência ou esperança

Protestar, requerer, orar

não adianta, não adianta.

A guerra perdida chegou.

 

MOVIMENTO FINAL

 

     Quanto aos “não-possuidores”, sua convivência com a escassez é conflituosa e até pode ser guerreira (Milton Santos)

 

Em março daquela época

o vulcão nascido mudo

estrondou de ira e rompeu-se

E como se fossem lavas

dantescamente escaldantes

que a tudo cobrisse de sangue

desceu do alto a loucura

em forma de ímpio exército.

Como animais famélicos

os quais fugissem do inferno

puseram-se a se rasgar

e a semear as desgraças

num solo para isso já fértil

levando a semente e o veneno

a cada alma ou esquina

de um ceifar imprevisto —

Ou mesmo não eram a semente

somente o desabrochar

daquilo que cultivado

apenas restava vingar.

Rosas de sangue e carne

grãos virulentos de horror

unhas e presas dos cães

chispas do desamor:

Estava inaugurada a História

que é quando se ensagram as mãos.

E foi uma crueldade grotesca

de tanta lama e entulho

que aquelas víboras guardavam

dentro das almas iníquas

petrificadas de dor,

Coisas que ali foram postas

por escravocratas eternos

que África aqui quis vingar-se

de papas, reis e europas.

A horda da mendicância

da submissão e da margem

instalou o reino do ódio

E o delírio tornou-se gesto

o gesto gerou os seus ovos

de tortura, infortúnio e terror.

Favelados de farda e sem farda

bateram-se numa guerra cruenta

rompendo o hímen das moças

varando o ventre das grávidas

tomaram sangue nas creches

deceparam a cabeça dos santos

esquartejaram inocentes —

Encheram os jornais de mortes

anônimas de vida nula.

Mas a luta pôs-se a subir

para onde teria importância,

as casas da grã-riqueza

com suas tropas de exício,

para as lojas da arrogância

com seus sonhos do impossível,

para as câmaras onde políticos

elevam o preço das fezes,

e antros outros dos vícios

de fabricar o que somos —

deixando atrás dos seus passos

o cheiro da carne crua

e o espírito do precipício.

Aquela massa insolente

de bestas-feras possessas

se propagava epidêmica

em busca da danação

E onde encontrava vida

qual nuvem de gafanhotos

reduzia-a a pó e fumaça

e postas de carne morna

Arquitetando destroços

revirando a calma, fazia

o caos melhor do que a ordem

Sujando a limpeza aparente

limpava a lama entranhada

no intestino das coisas.

Assim em um dos palácios

lincharam sábios senhores

que reproduziam tributos

taxas impostos confiscos

manipulando teorias

como se fossem micróbios.

No canto de outra indústria

cunhavam-se novas moedas

a cada nova eleição

as quais em seguida rolavam

como um esquecimento no chão.

Enquanto varriam o lugar

por toda parte só havia

morrer, ser morto ou matar,

os prêmios de uma tal loteria

sem precisão de sorteio

Vivendo pior do que bicho

sem paz, sem nada, sem meios

Purgavam o legado do lixo

enquanto varriam o lugar.

Nos grandes hotéis luminosos

com toda selvageria

a grande insônia insolente

deitou-se nas brancas cobertas

manchou as alvas cozinhas

babou nas fronhas limpíssimas

se embriagou em todo vinho

ficou mais doida e mais forte

a perpetrar o extermínio.

Mas quando o sol se evadia

e andava-se entre avarias

pelas vias do amargor

algo de bom acudia:

no meio do fundo furor

fulgia qualquer coisa de lírio

surgia qualquer coisa de amor.

No amorfo país sem cara

uma máscara se foi criando

com os olhos na própria máscara

pois olhos não havia em seu rosto.

Não creio que produzi

a anomalia ora dita

apenas servi de espelho

àquilo que se faz em moldura

às sete pragas do Egito

aos sete desastres nus

aos sete pregos que fixam

um povo à sua cruz

de trevas de crise e escuro.

Então a obra dos bárbaros

a obra dos aviltados

foi-se pintando aos poucos

com as cores de rotos lábaros

com os atos loucos dos loucos

— o que era sólido rasgou-se

o que era prenhe fez-se oco.

Sobre o porvir pôs-se a venda

de dura algema raivosa

até que Megruel entenda

o mecanismo das rosas.

No máximo da agonia

um vasto semeio de cruzes

em cada corpo mil cortes

os rostos crivados de sustos

Ia a cruel sinfonia

tocando a canção dos obuses

Os assassinos mais fortes

se coroavam augustos

E isso durou trinta dias

e trinta noite sem luzes

até que cansados de mortes

dormiram o sono dos justos.

 

EXPLICIT

 

Ó garças

ó aves canoras

ó pássaros de toda espécie

 

Voai que se rompeu agora

a malha crassa

que o horizonte esquece

 

Pintai com vosso incêndio e flora

a cinza baça

que o céu enegrece

 

Oh graças

eis a suave hora

em que passa a aflição da inércia,

Quando se abrem as portas da gaiola.

                                       ---*---

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Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite