ANDRESSA BARBOSA
DEPOIMENTO

A desmistificação do “todos somos iguais”

“Se o racismo não mata na entrada, ele faz com que você queira morrer na saída.”

 

“Na época da escola me chamavam de amarela azeda, e eu não gostava, isso é preconceito também.”, “Mesmo não sendo negro, eu sofria na escola por causa do meu cabelo crespo, por isso eu sei a dor que o negro sente” “Ah, foi proibido de participar de uma roda de conversa negra por ser branco e isso é preconceito também”. Começo meu texto por esses comentários para vermos como eles não fazem o menor sentido  um branco olhar na sua cara e dizer isso. Você acha que uma pessoa branca morre por isso, que ficará com traumas por ser branco? Me responda você, porque eu realmente não sei, vai que sou acusada de racista, como sabemos, racismo  é crime. Quando eu uso a palavra “branco” eu estou denunciando uma estrutura formada por pessoas brancas burguesas.

Vou expor meus argumentos : desde que eu sei o que é racismo, eu sofro mais que antes, obviamente, eu sinto na pele todos os dias. Ou você acha que é fácil ouvir perguntas, comentários e olhares, todos os dias da sua vida do tipo “AF MARIA, mulher deixa eu te fazer uma pergunta, num pesa não?”  “Eu acho tão estiloso seu cabelo” “Tá na moda”. Não, meu cabelo não ta na moda e nunca esteve. É só mais uma prova de resistência, eu não via problema com um branco de dreads e tranças, ate entender o significado. Quando um branco coloca dreads ou tranças é o fodão, estiloso e tals. Em contra partida, um negro usando é visto como sujo, vagabundo, etc... Quando me perguntam o que eu acho sobre eu respondo que não estou nem aí, a pessoa que reflita sobre.

Dos estereótipos que se tem com os negros, na minha opinião, um dos mais dolorosos é que somos fortes. Somos fortes, não por sermos negros, mas, por continuarmos resistindo depois de anos sofrendo. Lutamos pela vida a cada minuto, nos matam de todas as formas, e vão fazendo isso devagarinho. Nós, pessoas pretas, somos puro amor, apesar, de sofrermos tudo isso, ainda conseguimos sorrir. Sabe o que mais dói? É quando os nossos juntam-se a essa estrutura, mesmo tendo consciência de tudo, não é do preto da favela que falo, porque esse não “ sabe”, na maior parte dos casos do que ta acontecendo do lado de fora, é daquele que tem todo o debate racial e de classes. Dói por saber que ele continua “alienado”, que ele não está fazendo nada pelos os nossos, que ele sonha em sair da favela e nunca mais voltar, eu até entendo esse desejo, já o tive um dia. Concluo com a fala de Nátaly Neri:

“Racismo é uma estrutura, ele vai fazer com você se odeie, com que você odeie seu corpo, a sua vida, as suas origens, independente do que você seja, basta ser negro. Você pode ser magro, você pode ser gordo, você pode ser rico, pode ser pobre, você pode ser intelectual, pode ser analfabeto. A senzala tá pra todo mundo, de maneira, talvez, mais intensa pra um que pra outros. Mas a senzala ta aqui, a senzala ta quando eu odeio meu corpo, quando eu odeio a minha realidade, quando eu odeio quem eu sou, para corresponder o estereótipo de beleza da sociedade escravocrata atual.”

 

“Minha filha, você já é pobre; e preta, então...”, carrego essa frase dentro de mim até hoje, esse era o conselho que minha mãe me dava quando estava no ensino médio, ela dizia : “A única coisa que posso lhe dar é a educação, o que lhe resta é estudar” eu achava um absurdo ela falar aquilo, pois eu não entendia e nem aceitava minha negritude, porque a sociedade nos ensina a nos odiarmos. Agora eu sei o que ela queria falar, mesmo, sem conhecer a palavra racismo, ela entendia o que era  problema social e racial. Ela mãe solteira de três filhos, tinha o sonho de ser professora, porém, esse sonho foi interrompido quando teve que sair de casa com apenas 13 anos de idade por causa dos conflitos familiares.

Meu grande sonho é começar a dar aula, principalmente nas escolas de periferia para tentar levar o mínimo que seja de conhecimento e cultura do meu povo preto, o acesso que não tive, eu sei o quão difícil foi para mim chegar no ensino superior e quanto continua difícil permanecer num ambiente racista que se dedicar a nos tirar de lá a todo instante.

Andressa Barbosa de Almeida, 22 anos.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite