ANDRÉIA GAVITA CARVALHO
POEMA

fotografia: Ed Silva Quenoa

maria da pena

ela rogou ao mar

o touro branco

como a neve

 

a cor de seu desmaio

pelas fracas porcelanas

 

um troféu de reinado

para lembrar aos homens

que costurava ilhas

dispersas

 

e domava com rigor e charme 

caótico

os olhos náufragos

sobre sua pele 

coletora

 

quando surge na avenida 

willendorf

maquiada de ocre vermelho

vestida com couro curtido

desafia a vênus

anadiômene

 

e sussurram mitologias: 

cuidado, a minotaura.

 

 

moça com coleira fidalga no

ateliê das frutas de cera

 

cavaleiro da rosa, dama do terreiro

debaixo de suas asas

de lona

o visgo de um pesqueiro

 

losna brava, melissa rasteira

acima de suas pragas

e gosmas

a vítima sereia

 

leguminosa, levítica

cabreira

pata de bode, forcado &

rústica

escumadeira

 

dizem-te concha, jóia rara,

perfídia & ligeira

mas és uma lágrima

de bivalve magma

trepadeira

 

enrosco-me em teu pescoço

de cisne ou ganso feio

sou osso, colostro

amuleto tosco

sobrevivente

de tiroteio

argyreia nervosa

 

fogo azul

inferno celeste

e danações

nada são

rente ao sabor das pastilhas

púrpuras

que pedalam pelas papilas

enquanto soletro

o randômico amém

pêndulos e pistilos

no labor do corpo

prismado

em noite de mercúrio

na fronteira do piche 

com a pele e o parto das petúnias

párias

silenciadas pela glória gasta

das manhãs

as máscara pegajosas

dos pórticos fendidos

nada são

crivam-se no flanco pálido

palavras de pasto e mastro

amor-tecendo a mortalha vaga

dos dias que nadam

sem raízes que os possam

flutuar

 

status 

 

plutônica, contemplo os músculos do sol. tão distante de minha gázea túnica tumular. perfumo-me com as estelares distâncias. transformo-me, ungida pelas atmosferas principescas, reles mortal sacrária. o gelo de minha morada abraça moléculas do heliotrópico. declamo-me filha silenciosa, neta adorada. arrasto minha genética de labaredas ao palco onde nunca conseguirei arder, junto aos eclipses ancorados na febre da neblina mimética, rente ao cardíaco tablado de anonimatos. gélida como a esfera que assombra o corpo geométrico do vitruviano, sem virtudes de vísceras. com a veracidade de uma bandeirola lançada aos céus, esperançosa por olhos alienígenas que digam: estamos aqui.

Andréia Carvalho Gavita (Curitiba/PR): poeta paranaense, participante do Coletivo Marianas e do corpo editorial das revistas "Zunái" e "mallarmargens". Autora dos livros A cortesã do infinito transparente (Editora Lumme, 2011), Camafeu Escarlate (Editora Lumme, 2012), Grimório de Gavita (Maçã de Vidro Edições / Editora Lumme, 2014); papel leopHardo (Bolsa Nacional do Livro - Marianas Edições, 2016) e Panfletos de Pavônia (Série Leonella - Editora Córrego, 2016).

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

Conteúdo protegido pela Lei do Direito Autoral nº 9.610/98. 

Editora Responsável

Lia Leite