A MULHER QUE ENCOLHE

 

          Sentar na cadeira oposta à dela me incomoda. As raízes do seu cabelo estão brancas. Suas unhas são longas e desiguais. Algo na maneira como ela deixa o dedo mindinho curvado enquanto todos os outros estão estendidos por cima do guardanapo faz a pele do meu pescoço pulsar. Não há nada de errado com suas roupas, exceto pelo fato de que tudo à sua volta parece envelhecer. Eu quero ouvir sua voz. Esse é meu novo objeto da noite: quero ouvi-la comunicar-se com algo que não seja um sorriso tímido ou o zumbido de um passarinho. Só consigo pensar em como a palavra FOME sairia de seus lábios. Em minha mente, vejo-a engasgando na transição entre as sílabas, sua língua torcida em uma tentativa inútil de tornar a palavra menos real. Nunca funciona, eu tenho a súbita vontade de lhe explicar: passei anos rasgando páginas de dicionários e escrevendo poemas sobre quem veio antes, a cadeira ou a vontade de sentar. É sempre a cadeira. A cadeira está aqui desde o início dos tempos, desde antes dos seres humanos perceberem que sentiriam a necessidade corrosiva pelo descanso. A cadeira estava escondida em tempos de glória: mas agora está aqui, entre nós, enchendo esse salão com pessoas rindo alto demais e se debruçando por cima da mesa para alcançar a salada de maionese. Existe uma reunião acontecendo, e existe nós: ela, diminuindo mais a cada garfada, encolhendo-se em si mesma com a perícia de uma tartaruga que volta para o casco por que sabe que não existe espaço, se não o aqui e agora. E eu. Observando-a. Esperando pelo momento em que sua boca se abrirá e a palavra mais incrível de todo o vocabulário universal vai escapar por entre seus dentes. Ainda não sei que palavra é essa.

          Eu já a vi dezenas de outras vezes antes. Talvez tenha ouvido sua voz também. Mas agora é diferente. Eu me lembro dela como uma mulher de cabelo preto e olhar infeliz; o que é deprimente, mas não me causa coçeira. Agora, ela─ não sei como descrevê-la. Cada vez que engole algo, seu corpo encolhe. Ela está deixando de ser uma mulher para se transformar em uma miniatura. Está deixando de ser humana para transformar-se em algo que não conheço. Estou incomodada. Ela está comendo: mordida após mordida, vejo seus ossos enrolando-se em volta de si mesmos, e subitamente seu casaco é grande demais para seus ombros de vidro (se eu soprasse, será que ela se espatifaria?). Vejo apenas seus lábios, por onde ela continua a mastigar os pedaços de carne sangrentos que meu avô deposita em seu prato. Ela está tão pequena que tenho vontade de perguntar você precisa de um esconderijo no meu bolso?, mesmo sabendo que sou mais jaula do que lar. Mas a pequenez não parece afetá-la. Estou ficando ainda mais incomodada. Quando a cadeira é baixa demais para que ela consiga alcançar sua comida, ela prende seus dedinhos minúsculos na beirada da mesa, puxa-se para cima e senta-se ao lado do prato. Meu primo passa por ela e pergunta se quer mais pão com alho, e ela acena compulsivamente. Em vez de comer o pão, ela ataca as migalhas. As migalhas se acomodam em sua mão com gentileza. Eu só penso em todas as vezes que minhas mãos foram grandes demais para salvar uma bruxa de afogar-se no embaçado do chuveiro. Eu evito minha comida. Observá-la arrancou toda fome de dentro de mim. Não quero vê-la desaparecer por completo: quero apenas que fique do tamanho exato do meu polegar, para que eu possa esmagá-la lentamente. Quero escrever sobre ela, e então quero pôr um copo de vidro por cima de seu corpo. Quero guardá-la para sempre.

          Ela cata as migalhas de um jeito tão patético que quase volto a sentir pena. Essa maneira afobada como cada um de seus nove dedos funcionais vai atrás de um pequeno pedaço de pão amassado me dá náuseas, pois acabo de perceber que eu nunca quis nada tanto quanto ela quer essas migalhas. Agora, quero que ela me diga a palavra FAMINTA. Quero que pronuncie cada letra como se seu estômago não conhecesse a palavra COMIDA. Preciso disso quase tanto quanto ela precisa lamber o sangue escorrendo pelo canto da sua boca. Me sinto fraca com essa violência. Ela continua engolindo a si mesma. Continua em seu processo de desexisistência. Ninguém olha para a cadeira vazia. Ninguém percebe o pequeno ser humano engolindo tudo que é jogado em sua direção. Somos só nós, e não tenho certeza se ela percebe que estou aqui. Quero gritar: VOCÊ ME ENXERGA? VOCÊ CONSEGUE ME VER, APESAR DAS BORDAS BORRADAS? Estou gritando agora. Estou gritando tão alto que toda minha raiva se converteu em silêncio. Estou gritando com tanta força que minhas veias estão explodindo em meu pescoço. Nada muda.

          Gostaria de lembrar seu nome: estou certa de que isso mudaria tudo. Se eu lembrasse seu nome, poderia apenas chamá-la e ela seria obrigada a parar de me ignorar. Se eu lembrasse seu nome, poderia comentar com a minha mãe sobre como sua pele se transformou em algo esponjoso desde a última vez em que a vimos, poderia comentar que suas costas curvadas não conhecem a delicadeza. Mas jamais diria que ela me incomoda: parece pessoal demais para se dizer em voz alta. Dizer que ela me incomoda seria admitir que ela enfiou um alfinete em algum pedaço de pele que não consigo alcançar. Seria me ajoelhar e implorar para que alguém coçasse aquele único pedaço da minha omoplata que nunca fui capaz de tocar. Eu quero me esconder por trás da minha maldade; só quero ter minhas mãos substituídas por facas, mas a maneira como ela se divide a cada garfada faz algo suave preencher os espaços feridos das minhas mãos. Quero apenas que ela me diga seu nome. É só disso que preciso: seu nome, e a vontade de sufocá-la em um pote passará. Ela está tão pequena agora que tenho medo de respirar em sua direção. Estou certa de que, se respirar, seus ossos frágeis vão partir-se ao meio. Não quero machucá-la. Quero apenas escrever sobre ela. Quero que, em algum papel amarelado, haja o registro da mulher que dobrou-se em sua pele até deixar de existir. E mais: quero ser parte disso. Quero dizer que eu estive aqui, e não reconheci uma situação que deveria ser impedida por que estava ocupada demais pensando em como a juntura dos meus dedos estalando é um som mais alto do que a risada da mulher jamais será.

Ana Luiza Furlanetto nasceu na cidade de Rio Grande em 1997. Com um livro nas mãos desde que cresceu o suficiente para poder carregá-los, passa a maior parte de seu tempo livre lendo. Fez parte da primeira turma de graduação em Escrita Criativa do Brasil pela universidade PUCRS, período durante o qual publicou contos em antologias, incluindo a antologia do próprio curso.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite