UM PRETEXTO AO AMOR (ou “A VIDA”)

Sejamos distância

mas também destino

rumo certo

ao amor que esquenta

ao amor que se alimenta

de pernas partes púbis

 

Sejamos tormento

mas também ternura

passos lentos

ao fim que espera

ao amor que erra

com voz olhos lágrimas

 

Do amor ao amor

do não ao chão

mas do sim ao fim

Dê amor ao amor

Dê amor

E só

 

 

VAZIO

Buscar espaço no dia cheio

encher a taça de vinho

inflar o peito vazio

É melhor que esteja frio

Descer do salto, prender o cabelo

acender, o último, com desvelo

botar o New York do Lou Reed

dizer a Pedro

ou a Romeo Rodriguez

sobre essa leve impressão

de que não fosse isso curtir

sistematicamente

a fossa

Haveria de se discutir

chamar de depressão

 

(não há tempo para reflexões intermináveis, eu sei)

 

PROSTITUIÇÃO LATO SENSU                          

Na sala fechada

com vista pro ambiente

de trabalho

surge

na cara de fachada

um sorriso

sintético

e simpático

com o qual se atreve

a não dizer ao chefe

aquilo que a terapeuta

recebe pra escutar.

 

É prostituição Lato Sensu

diariamente

 

das oito às seis.

 

ENLACES

A sutileza dos gestos

involuntários

conduz dois corpos

ao amor que

de tão consciente de si

os deixa distraídos

 

todo o pensar

passa a ser

dos movimentos

entrelaçatórios

 

da trama da mão

ao método do pé

da tática do arrepio

ao artifício do cafuné

sendo este

quase tão ardil

 

quanto o enlace do pescoço

o encaixe do quadril

a maçã do rosto

amassando

a janela do olho

 

dois corpos entrelaçados

têm a mais pura habilidade

de tornar a cama inteira

menor que a metade

 

 

DESPERTENCER

ser o assunto principal

de uma conversa fiada

ou o melhor guerrilheiro

de shangri-la

 

ser parte do futuro especial

de uma pessoa finada

ter a glória de ser o primeiro

a desistir de chegar

 

A grandiosidade

descontextualizada

faz estes pobres diabos

escolher o menos

feio:

 

a solidão de correr

atrás do próprio rabo

ou a sociabilidade

de cheirar o rabo

alheio.

 

ANTROPOCENTRISMO

É bem verdade

O homem está no centro

Mas não

com a mão no peito

Pé na porta

Cara no sol

 

Fosse tudo que se vê e pensa

uma enorme circunferência

dado que B é bem no centro

e A algum ponto de dentro

 

Nem ruim, nem bom

O homem é A em B:

Uma coisa qualquer

Posta em perspectiva

 

É bem verdade.

O homem está no centro

Mas sim

Com o rim exposto

Cara de marmota

 

Posição fetal

 

Amanda Peçanha Teixeira Vaz (26 anos), poetisa e contista, bacharel em Direito. Curitibana de coração. Gosta de entender e de se fazer entender por meio da palavra escrita. Urbana, demasiadamente urbana, é fascinada pelo ser humano e por paisagens citadinas. Justa, bem-humorada, curiosa, sagitariana e filha de euá.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

Conteúdo protegido pela Lei do Direito Autoral nº 9.610/98. 

Editora Responsável

Lia Leite