ALVES DE AQUINO
FRAGMENTO

A DEDICATÓRIA

 

Imagino Saramago ante a fila de autógrafos e a ouvir o pedido escandaloso “o senhor por favor desenhe um hipopótamo” Um hipopótamo? Desenhá-lo? Com aquela multidão à espera? Não reprovo o escritor português por não ter acedido ao pedido: tanta gente por atender só mesmo tempo para a assinatura rápida que dirá desenhar e um hipopótamo! O desavisado leitor sequer se dera conta do título do livro que comprara, A viagem do elefante. Não reprovo Saramago mas também não reprovo a inusitada solicitação: quem sabe eu houvesse atendido apesar da alongada “bicha”. É que a sessão de autógrafos existe supostamente para que o leitor possa trocar, se não algumas palavras alguns olhares com o escritor além de claro receber em mãos um exemplar diferenciado um espécime-especial da obra: acreditando tenha o leitor estima pelo autor — espera evidentemente a possibilidade de distinguir seu livro de tantos outros através de uma marca um registro um vestígio um signal próprio do escritor uma assignatura e se possível acompanhada da expressão de alguma consideração um abraço um afetuosamente um satisfação um gratidão. Aquele leitor-não leitor de Saramago quisera um hipopótamo: “pois sim não sou desenhista pois pois mas cá tendes vosso hipopótamo bem hipopotamizado” (aliás nem muito diferente de um elefante). Ocorre que em geral os escritores a(za)famados concedem com negligência os seus autógrafos; com ar de impaciência ou de enfado com inquestionável semblante de aporrinhamento e de obrigação a que fugiriam caso pudessem. Sentem-se alguns como animais de zooilógico cercados por apreciadores que os veem como exóticos raros singulares como um                  hipopótamo! E por isso cumprem o que poderia ser instrutiva diversão como um dever aborrecido como o lado intragável da atividade o lado insuportável a adiar o quanto possível e a contornar se possível. Esquecem-se ou preferem fingir-se esquecidos de que se escrevem querem ser lidos e se não o querem não deviam permitir a publicação; esquecem-se de que se se querem publicados querem-se lidos e se o não querem não precisariam nem mesmo escrever. Dirão que o ser lido não implica ter contato presencial com o leitor que a palavra impressa é precisamente a oportunidade de se fazer chegar (incluam-se os livros digitais as publicações virtuais os vídeos e similares) sem o contato próximo sem o tête-à-tête. E terão — se não razões — sua razão. Não se deve injungir ninguém a maior proximidade do que aquela a que está disposto. Que J. D. Salinger Thomas Pynchon Dalton Trevisan e Raduan Nasser prefiram o recolhimento, é de se aceitar e talvez admirar quando tantos com tão menos a dizer não perdem a oportunidade de aparecer e tagarelar. Porém dizíamos das dedicatórias que nas noites de autógrafos têm seu espaço privilegiado. O autor que cede a essa espécie de evento assume o dever de gentileza de bonomia cordialidade. Assim considerando parece que se está a exigir um sorriso de plástico pregado à cabeça de papel do escritor: antes o que se pede é a boa vontade de atenção espontânea ida já predisposta à amabilidade. O dever aqui ponderado nada implica de deontológico cumprimento kantiano em nome de universalidade categórica e imperativa: é mais simples. É o alegrar-se com a oportunidade de ter diante de si aquele para quem — hipoteticamente/ hipopotamicamente — se escreve, o leitor-ideal o outro-si tornado real leitor. Que as dedicatórias contenham o abraço a lembrança a admiração a gratidão e algo além — algo além — para que aquele exemplar em mãos já não idêntico ao da prateleira não se homogeneíze por sua vez na identidade das dedicatórias amorfas. Que as dedicatórias se diferenciem como são diferenciadas as pessoas e que não se caia no erro da igualação dos diversos no pseudo-anonimato da categoria “leitor”. É uma atenção merecida é um destaque proveitoso em prol de quem se deu ao trabalho de estar ali a enfrentar uma fila. Se gigantesca esta, ora: tanto mais motivo para se ter direito a um diferencial: um hipopótamo por que não?

(fragmento de "Breve Tratado de Vida Poética")

Alves de Aquino nasceu em 1974. Publicou em 2014 o volume de elegias Miravilha – liriai o campo dos olhos. “A dedicatória” é FRAGMENTO de um ensaio de ensaio poemático-existencial, o Breve tratado de vida poética, em preparação.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite