O Quanto Sou

 

O poetíssimo Carlos Nóbrega disse-me que diante de enorme Biblioteca — não sei se a Nacional no Rio de Janeiro — sentiu a vanidade de publicar qualquer coisa além pois não faria falta um livro a mais. Na hora assenti porque o desespero de escrever e a sensação de nulidade também me ocorrem, recorrentemente. Depois pensei que não que a sensação de inutilidade da escrita assolara-o em função da ampla visão de todos aqueles livros e da impressão de quantidade que lhe pesara como se se deixasse achatar (ele sozinho) pela massa dos autores inúmeros ali, diante. Acontece que o que faz a força da impressão de quantidade é o momentâneo esquecimento de que o mil é mil por serem mil as unidades que o compõem e se vistas de perto não serão estas a repetição mera e milésima do um porém a individuação de cada algarismo que leva ao mil. Como o dois tem a sua unidade sintética (não analítica) enquanto 1 + 1 ≠ 1 e 1 — e o três tem sua identidade possível graças ao 1+1+1 e nem por isso deixando de ser 3, também o 1000 é possível em razão apenas de cada unidade cuja singularidade permanece resguardada enquanto imprescindível ao inteiro cômputo. Esteja Carlos Nóbrega entre os livros da Biblioteca Nacional e poderá levar outro poeta à noção — não enquanto Carlos Nóbrega mas enquanto indistinto entre mil ou entre mil x mil — poderá levar à noção da desimportância de qualquer volume acrescentar ao montante já existente e já bastante. Vá porém esse poeta à prateleira e escolha o Canto aceso e folheie-o e leia-o — e o antes autor anônimo (anúmero) torna-se um Carlos Nóbrega e não importa se entre mil ou mil x mil porque voz úmnica de poesia única porque canto de Carlos aceso Nóbrega. A indistinção dos exemplares desfaz-se e chega-se à percepção da individualidade de cada-obra de cada-autor responsável pelo canto que é só seu pelo canto que somente ele ocupa na prateleira. De modo que, meu amigo e poetíssimo Carlos Nóbrega, se tivermos que deixar de escrever tal não se deva à quantidade (quantos somos?) do que se publica: havendo livros e livros por que não os nossos entre estes? Havendo pessoas e pessoas por que não nós entre estas? A verdadeira objeção à escrita e publicação não é a do mil mas a do mal a saber: mesmo não houvesse livro nenhum e por conseguinte nenhuma Biblioteca Nacional ou livraria local valeria a pena publicar seja o que for? Vale a pena (é indagação moral mais que estilística) fazer algo haver — algo no lugar de nada? Vale a pena escrever quando a palavra — vinda do silêncio — aspira o retorno ao seu não-ser o novamente silêncio? Resposta provisória: João Cabral de Melo Neto, “O artista inconfessável”: “Fazer o que seja é inútil./ Não fazer nada é inútil./ Mas entre fazer e não fazer/ Mais vale o inútil do fazer” 

 

[Metafísica de empréstimo o eterno retorno a volta do parafuso Oroboro: talvez o devir do nada seja tornar-se ser e deste o vir-a-ser tornar ao nada e em meio ao ser e ao nada estamos nós — sendo por enquanto — e por enquanto escrevendo — palavras imbuídas de silêncios — signos cercados de espaços em branco — letras garabulhadas com... lápis branco]

 

(fragmento de "Breve Tratado de Vida Poética")

 

Alves de Aquino (na foto, com Carlos Nóbrega) publicou o volume de sonetos Miravilha – Liriai o Campo dos Olhos em 2015 (Ed. Confraria do Vento) e prepara um Breve Tratado de Vida Poética.

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

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Editora Responsável

Lia Leite