– motivo –

 

porque o que posso ser nesse mundo é poeta

 

porque traduzo em palavras

    toda a minha verdade que invento

 

porque, quando menino,

    eu olhei no olho da rua

       e vi uma estrela numa poça de lama

 

porque eu mergulhei na poça

     e apanhei por isso

 

porque havia um beco e um curral

     e eu vi uma borboleta pousada serelepe num

estrume de vaca

 

porque minha vó tinha uma sacola de palha

cheia de bolachas

 

porque,

    um dia,

    uma mulher me beijou a boca numa noite aperreada

 

porque eu tive um amor pra sempre que se foi no nunca

 

         porque o tempo passa

              e eu desacompanho

 

                                   

 – Do mais antigo tear de asas –

E fosse o homem esquecer de suas asas. E fosse o homem se fincar na terra até que nada mais houvesse além de poeira e posse... e tosse... e tosse... E fosse o homem se dedicar a um cometa, comendo céus e céus a esquecer de Deus de tão comum e visível até de não notar, posto que é tudo a se confundir no nada. E fosse o homem a se perguntar por pés... E fosse o homem lembrar que tem asas... até a mais antiga das lembranças. E fosse o homem se dizer faminto de um bandolim na rosa-dos-ventos entre o céu e a terra, a alimentar as dores e as penas aos pedaços partidos da sensação de voar. E fosse o homem se dedicar a um invasor de madrugadas, cujos olhos roubam versos de sua pele, roubam cartas e selos de um correio infindo, inconcluso, a ofuscar tanto o conteúdo quanto o destino. E se fosse o homem cair, que caísse do céu, qual chuva a se esquecer do tempo. Fosse assim, talvez o homem encontrasse o amor... na anti-rota das especiarias... Fosse assim, talvez o homem descobrisse a pólvora... a incendiar os frevos e os fogareiros de pipoca... a ritmar as bandas e as coisas de amor. E fosse o homem solidão a se imaginar uníssono, de palavras e silêncios, enquanto dança a primeira bailarina, camaleoa de diamantes e intempéries. E fosse o homem pintar tempestades de dentro de uma gaiola de ouro, com a saudade esquecida em uma partitura, com o riso calado entre lágrimas, com o olho líquido e o pé-de-chumbo, com a cidade toda asfalto engolindo seus pensamentos. E fosse o homem reinventar suas asas. E fosse o homem virar folha para encostar no céu... e como se o tempo fosse nada, mostrar-se às asas em meio aos fogaréus de arranha-céus de uma lembrança imaculada. E fosse o homem ao nada além de nada. E fosse o homem conhecer a ressurreição, ofertando suas asas a um templo de borboletas. E fosse o homem ser mais leve que o ar a entender por fim que amar é a maior liberdade que se pode encontrar pelos céus e terras. Amém... E fosse o homem a se arrastar a gritar que amem... e fosse o homem a caminhar ainda manco a gritar que amem... e fosse o homem em passo firme a gritar que amem... e fosse o homem a correr desesperado a gritar que amem... e fosse o homem se jogar de um abismo a gritar que amem... E fosse o homem se encontrar a fabricar suas asas no sereno do dia de hoje

– Coração Cinzeiro –

 

Meu coração é um cinzeiro usado

   cheio do maçado das cinzas

      dos amores passados

   tanto quanto presentes, futuros

 

   ponta a ponta

   do que o fogo acaba

 

      e fogo acaba

 

   queima cigarro de palha

         cigarro nobre

      com cheiro de cravo

         cheiro de mato

 

               cigarro

 

   de tempo determinado

   tempo que suga o fogo

      que sopra a fumaça

      e guarda as cinzas

      no coração cinzeiro

 

   o amor é queimada

         é coivara

   e dura o tempo da queimadura

      queimadura que dura

      na tessitura queimada

   e depois é novo velho chão

         é novo cigarro

 

      tudo tem tempo terminado

         e o que existe

   é porque ainda não foi queimado

 

         tudo é queima

         cinza e passado

 

   mesmo o acender isqueiro

   mesmo a fricção do fósforo

      quando finda o gás

      quando se chora a lixa

      quando o tempo espicha

      quando é nunca mais

   quando se chega ao filtro

      no sereno do fim

      e a tristeza refuma

         todas as pontas

      e jura que nunca

            mais fuma

   e pede a Deus outro cigarro

 

         que se vier

 

   vem com tempo determinado

      um apanhado de cinzas

            remodelado

            costurado

   quando se tira a linha

   quando se acende o isqueiro

   ou quando se fricciona o fósforo

      para começar a acender

         as velas do velório

 

   para quando se chegar ao filtro

 

      quando se passa a catar

         as pontas de amor

                  do chão

– Poetapoema –

 

 

Pelos porões bosques e jardins

Um homem reinventa o universo

Novo outro outras vidas

Raízes verbos novos versos

Clorofila olhos rumo ao sol

E lágrimas de amores não secretos

 

Numa explosão de multicores

O homem procura um sustento

Não é pão nem água são sonhos

Que povoam seu vasto pensamento

E o cobram cada dia e trocado

Amarras de poder parar o tempo

 

Homem-bicho de latas e palavras

Reinventa amores e saudades

Medonha erupção da ausência

Nome de vulcão e de cidade

Tudo que o faz ser pássaro morto

É a ferida viva que sempre arde

 

Homem arte em carne viva

Observa tudo muito atento

E explode no ventre novas cores

As ânimas de novos pensamentos

E num corpo suado de mulher

O poeta redescobre o nascimento

 

 

 

 

Alan Mendonça é escritor, compositor, dramaturgo, arte-educador, editor e produtor cultural. Formou-se em Letras pela Universidade Estadual do Ceará e é Mestre em Linguística Aplicada pela mesma universidade. Destacam-se, em sua trajetória artística, sete livros publicados, quatro CDs lançados, além da participação em várias antologias literárias e musicais.

Para participar da próxima edição confira nossas REGRAS DE PUBLICAÇÃO.

 

Revista Propulsão (ISSN: 2595-1351 )

Conteúdo protegido pela Lei do Direito Autoral nº 9.610/98. 

Editora Responsável

Lia Leite